quarta-feira, 29 de agosto de 2007

"desvendando a memória" por Rafael Correia


Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004), do roteirista Charlie Kaufman e do diretor Michel Gondry tem, como temática central, a perda da memória. O personagem principal, ao saber que sua namorada fez uma operação tecnológica para apagá-lo de sua lembrança, resolve, instintivamente, fazer o mesmo. Ao tomar consciência de estar destruindo uma parte de si mesmo, ele fica horrorizado diante da perspectiva de um futuro sem o apontamento daquele sentimento, sem a memória do mesmo, e se arrepende. Contudo, mesmo com todo esse processo de “aniquilamento” da memória, o roteiro sinaliza que os personagens centrais, de forma recorrente, continuam a se encontrar.

O tema da perda de memória parece estar inserido no desmantelamento da identidade nas sociedades modernas. Com o advento da modernidade, há uma espantosa atmosfera que gera uma enorme sensação de aventura, crescimento e transformação, ao mesmo tempo em que apresenta o prenúncio constante de destruir tudo o que temos, sabemos e somos. Há o anúncio da ruptura com a idéia de comunidade e a introdução do conceito de sociedade e de esfera pública. Para Giddens, a modernidade é balizada pela desorientação, uma vez que as pessoas têm a sensação de não entenderem os eventos sociais em sua plenitude. Ela produz uma constante percepção de precariedade, angústia, ameaça e dúvida, desencaixando as identidades de seu caráter próprio e fixo.

Nesse sentido, as tradições agregam e norteiam a organização tempo-espacial das comunidades. A ordem social assentada nos hábitos tradicionais apregoa a valorização do passado e dos símbolos enquanto fatores que eternizam as experiências das gerações. Ao mesmo tempo, ela se atrela ao futuro – entendido aqui não como algo longínquo e arredio, mas como uma espécie de linha contínua que envolve o passado e o presente. Não há, portanto, uma quebra entre o ontem, o hoje e o amanhã. Dentro disso, o ritual constitui o meio para resguardar a memória coletiva e as verdades inerentes ao tradicional - toda tradição, assim, determina uma verdade, o indivíduo que está atrelado há uma determinada não cogita, sob hipótese alguma, alternativas fora das práticas determinadas por ela. “A tradição fornece e estabelece uma estrutura para a ação que pode permanecer em grande parte não questionada” (GIDDENS, 2002).

Na modernidade, o ritual é reinventado e reformulado. Nesse contexto, a tradição é reincorporada. Nas palavras do célebre historiador Eric Hosbawn, há uma “invenção das tradições”. Elas, no entanto, evoluem ao longo do tempo, podendo ser alteradas ou transformadas de maneira bastante repentina, são, portanto, constantemente, inventadas e reinventadas.

Apesar dessa “invenção das tradições”, é fato que, com o surgimento do mundo moderno, a influência delas entraram em declínio. E, com esta “decadência” da tradição, a identidade e o conceito de individualidade mudaram. Em uma sociedade tradicional, a identidade é balizada pela própria tradição. A modernidade, por sua vez, ao promover uma quebra com as práticas e preceitos preestabelecidos, oferece aos indivíduos a possibilidade de maior liberdade de ação, de emancipação dos constrangimentos do passado e de uma identidade mutável; o indivíduo passa a ser muito mais autônomo, a responder por si mesmo.

Por outro lado esta quebra, ainda que parcial, com uma ordem tradicional, ao mesmo tempo em que gera uma certa autonomia pessoal, despoja as pessoas de uma sensação de segurança e firmeza das coisas e isso pode se transformar em um poderoso manancial de ansiedade, aumentando, assim, as dependências e as compulsões. Sobre isto é interessante notar que, nas sociedades modernas, aparecem uma série de novos vícios; são viciados em sexo, trabalho, futebol, exercícios, comida, drogas, entre tantos outros. Para Giddens, o dependente, assim como quem está fortemente atrelado a uma tradição, é igualmente escravizado pelo passado. A respeito do tema, o sociólogo nos diz:


“Como a tradição, a dependência diz respeito à influência do passado sobre o presente; e como no caso da tradição, a repetição tem um papel-chave. O passado em questão é mais individual que coletivo, e a repetição é movida pela ansiedade. Eu tenderia a ver a dependência como autonomia congelada”. (GIDDENS, 2002).

A psicanálise e os grupos de autoajuda – também febres nas sociedades modernas – se encaixam perfeitamente nesse cenário; eles trazem, exatamente, um modelo para a renovação do senso de identidade. Permitem ao indivíduo uma revisita ao passado para, assim, instituir uma maior autonomia para o futuro.

O filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças está enquadrado, precisamente, nesse clima de flexibilização e mutabilidade das identidades e no caráter descartável das experiências – o que gera insegurança para os indivíduos. Dentro disso, identidade e memória estão intimamente entrelaçadas; a ausência de uma, configura, necessariamente, a aniquilação da outra.

Nesse cenário, vários intelectuais comungam da idéia da memória como objeto de construção coletiva. O sociólogo Maurice Halbwachs, discípulo de Durkheim, afirmava que ela possui sempre um caráter social, não havendo nenhum tipo que pudesse ser estritamente individual. Para ele, as lembranças são uma reconstrução e uma representação do passado elaborado no presente. A memória, portanto, não deve ser compreendida como um elemento puramente individualizado; ela não é apenas um lembrar sozinho, mas sobretudo, uma edificação coletiva, decorrente de decisões sociais complexas. “Pensamos, lembramos e exprimimo-nos em forma social e culturalmente determinada” (HUYSSEN, 1997 apud ARBEX JR., 2001).

Outra característica da modernidade, intimamente influenciada pela chegada, desenvolvimento e enraizamento do sistema midiático, é o forte privilégio que se dá à percepção visual dos acontecimentos como fonte de conhecimento e de verdades. Porém:


“À luz da tradição cultural que identifica ver como saber é coerente, e até esperado, que o desenvolvimento tecnológico dos meios de registro e comunicação tenha reforçado a importância da percepção visual. Mas, da psicanálise e das ciências sociais, sabemos, hoje, que o olhar é condicionado pela cultura, mas, sobretudo, por uma série quase infinita de mecanismos inconscientes (preconceitos, traumas, automatismos). Testemunhar um acontecimento é também construí-lo segundo o aparelho psíquico e a formação social e cultural da testemunha” (ARBEX JR, 2001).


Em uma das seqüências mais interessantes do filme, o personagem principal, dopado e interligado à “engenhoca eletro-neurológica”, necessária no processo de “desconstrução da memória”, começa a contrapor a realidade percebida à realidade induzida pelo tratamento. É nesse momento que ele começa a reconstrução da própria identidade.

Essa mesma angústia diante da “desconstrução da memória” pode ser percebida, em maior escala, no processo midiático por que passa a percepção contemporânea da realidade. Nessa perspectiva, a realidade perpassada pela mídia, é um procedimento de construção onde interagem, entre outros, diversos fatores de natureza pessoal, ideológica, cultural, histórica e do meio físico e tecnológico, trazendo consigo informações compreensíveis em um dado momento histórico e social. Ao mesmo tempo em que tenta representar a realidade, a mídia também a transforma e a modifica. Ela faz, portanto, um relato atual dos acontecimentos. Os media são responsáveis pela produção e reprodução de conhecimento na sociedade, participando, assim, da construção social da realidade. Por isso, eles não devem ser entendidos como algo que possui verdades absolutas e inquestionáveis, mas sim como um mediador.

Contudo, a influência dos meios de comunicação na sociedade moderna e a autoridade das imagens midiáticas na memória dos indivíduos não podem ser negadas. Nesse sentido, até como uma estratégia dos media, a espetacularização da memória, como diria Andréas Huyssen, é seguida, necessariamente, pela amnésia – a mídia como “produtora do presente” aposta permanentemente no esquecimento para oferecer o velho como sempre novo, enfraquecendo, assim, a consciência histórica, produzindo um “presente sem fim”; um presente cada vez mais impalpável que desaparece rapidamente. O tempo passado cedeu seu lugar e sua função como estabilizador do presente, fazendo com que o novo passe a demarcar e a validar a própria cultura; o passado como continuidade da experiência sai de cena. Nesse sentido, o futuro, por sua vez, é cada vez mais fechado, não tendo mais a perspectiva de ser o “iluminador” do presente e do passado. No fundo, vivemos em uma verdadeira tirania do presente.

Citando Andréas Huyssen, célebre crítico cultural:


“Existe uma contradição desconcertante em nossa cultura. De um lado, há aquela lamentação bem conhecida a respeito da amnésia induzida pela mídia. Porém, esse inquestionável ‘enfraquecimento da história’ e da consciência histórica, tem sido acompanhado por um boom da memória de proporções sem precedentes. A dificuldade na conjuntura atual é pensar a memória e a amnésia juntas, em vez de simplesmente opô-las. Portanto, nossa febre não é uma febre de consumir a história que pode ser curada por um esquecimento produtivo. É antes uma febre mnemônica que é causada pelo vírus da amnésia e que por vezes ameaça consumir a própria memória”. (HUYSSEN, 1997 apud ARBEX JR., 2001).



A ameaça do esquecimento surge, exatamente, no ventre da própria tecnologia; a atemorização mundial com a iminência da perda de memória cibernética pelo chamado "bug do milênio”, na passagem dos séculos, talvez seja o melhor exemplo disto. A cultura da memória estaria, segundo Huyssen, ligada pelo clima de desorientação, bem comum na “modernidade tardia”, e pela velocidade com que se tornam obsoletos os produtos tecnológicos, científicos e as tradições. O boom da memória serviria para contrabalançar a perda da racionalidade e da pressão espaço-temporal. Nesse sentido os órgãos da mídia exercem uma dupla função; ao mesmo tempo em que favorecem o florescimento desse temor pelo esquecimento, através do bombardeamento constante de informações, eles se convertem na instância capaz de atualizar constantemente a memória dos espectadores.
Se inicialmente as sociedades estavam preocupadas com o futuro, na atualidade a inquietação se dará em torno desta “espetacularização da memória” como forma de assegurar o passado, ou melhor, a recodificação do passado como presente. Nesse cenário, inclui-se, por exemplo, a valorização de sítios históricos, centros urbanos, monumentos, paisagens, brechós, e a “musealização”. È exatamente o medo da amnésia que leva a essa valorização dos registros do tempo passado, à fixação de uma “memória congelada”.

Primeiramente, os museus tornaram-se o bode expiatório dos iluministas, uma vez que representavam a instituição que possibilitava a articulação entre a nação e a tradição. No panorama da “modernidade tardia”, no entanto, viu-se um reflorescimento dos museus, aproximando-se de uma obsessão na esfera da cultura. A "museumania" contemporânea configuraria a ultrapassagem de um momento no qual essa instituição assume uma concepção conservadora e elitista, cedendo lugar ao hibridismo que rege a produção e a recepção dos bens simbólicos numa sociedade de massa; ele se transforma, portanto, em cultura de massa.

Ainda segundo Andréas Huyssen, os museus foram concebidos como instituições que colecionam e preservam o tempo passado. Porém, ao fazer isso, o passado, de maneira inevitável, seria arquitetado sob influência direta do presente e a partir dos interesses deste último. Assim, os museus serviriam tanto como uma câmara mortuária do passado, quanto como um lugar de possíveis ressurreições.

Ao mesmo tempo, os museus propiciam ao observador uma vivência não-vivida, eles satisfazem a necessidade da própria sociedade de experenciar os acontecimentos e de firmar e autenticar uma identidade que os media prometem, mas não conseguem satisfazer. E, ao se consolidar como um referencial entre passado e presente, o museu garante uma sensação de segurança e conforto num mundo tão turbulento quanto o transformou a “modernidade tardia”.
No final do filme, ao descobrir “provas e registros concretos” do passado, o personagem principal, despede-se do sentimento de angústia. Agora, o futuro já não aparenta ser tão assustador, ele já consegue estabelecer um diálogo com o passado – o que lhe propicia uma sensação de reconforto e de segurança. Na conclusão, as fitas que Joel e Clementine escutam e que os fazem descobrir que já tiveram um relacionamento fracassado, não os impede de insistir na relação, avaliando que os antigos erros decorriam mais do processo de convivência do que propriamente neles; eles acabam acreditando na possibilidade de dar um novo sentido às suas experiências juntos.






















Bibliografia


ARBEX JR. José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela. 2001, 294 p.

BERGER, Peter L; LUCKMANN, Thomas. A Construção Social da Realidade. Petrópolis: Vozes. 2002, 22 ed., 247 p.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. 2 ed. São Paulo: Companhia da Letras, 1986, 434 p.

BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP. 1992.

__________________________. Variedades de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2000, 320 p.

GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2002, 234 p.

_________________________. Mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record. 2000, 110 p.

HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1997.


HUYSSEN, Andréas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano. 2000.

THOMPSON, John B. A Mídia e a Modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes. 1998, 261 p.

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