domingo, 10 de agosto de 2014

"O cantor de Jazz", por Rebecca Cirya


O cantor de Jazz (The Jazz Singer, Alan Crosland, 1927) foi um filme produzido pela Warner Bros, é considerado o primeiro filme falado da história do cinema, na verdade, o termo mais apropriado seria o primeiro filme sonorizado, pois ele tem pouquíssimas cenas onde são proferidas frases pelo ator Al Jolson. Ele foi realizado com a tecnologia vitaphone que possibilitou a sincronização de imagens e sons, o diálogo e a música eram impressos na película.
Uma das frases mais lembradas do filme é : "Espere um minuto, espere um minuto. Você ainda não ouviu nada”, de acordo com alguns críticos essa frase é uma metáfora para o nascimento da fala no cinema. Uma frase verdadeira não apenas para a diegese, mas para cinematografia, sabemos que depois de O Cantor de Jazz os espectadores ouviram cada vez mais e até hoje não pararam de ouvir.
O filme é um marco na história do cinema e muitas vezes é lembrado apenas pela sua inovação técnica, algumas pessoas acham seu roteiro maçante, mas o cantor de jazz também é muito importante pelo tema que aborda e pelo contexto social no qual está inserido. A narrativa é centrada  na história de Jack Rabinowitz filho de um Judeu que é orador e cantor da sinagoga em que participa. Todo homem da família Rabinowitz deve ser cantor das reuniões religiosas, pois recebeu um dom de Deus, é uma tradição familiar que já ocorre há cinco gerações . Porém o jovem Jack tem outro sonho, ele almeja ser um cantor burlesco, cantar músicas populares como o jazz e ser famoso. A partir dessa oposição de interesses (seguir seus sonhos ou a tradição familiar) o filme se desenvolve mostrando a discriminação que o jazz sofria na década de 20.
 O Jazz presente no filme representa muito mais que um estilo musical, é uma música que tem sinônimo de liberdade, que quebra com os valores e convenções sociais estabelecidas, é um estilo que está à frente do seu tempo. O enredo do filme pode ser interpretado como um separação entre as convenções antigas representadas pelas música e cultura judaica e o novo mundo, o desconhecido e inovador representado pelo jazz de Al Jolson. Muito pertinente é comparar a narrativa com o próprio filme, na diegese e fora dela o tema é ruptura. Historicamente O Canto de Jazz foi um divisor de águas entre o cinema mudo e o sonoro.
 Essa obra de Crosland já mostra as características e convenções de um novo gênero cinematográfico, o musical. Suas técnicas narrativas ainda trazem vestígios do filme mudo,ou seja, ele é acompanhado por intertítulos, mas a questão está na música que é o grande centro da  narrativa, assim como, os números musicais cantados e dançados por Al Jolson que seriam muito comuns na década seguinte. Além disso as músicas interpretadas no filme foram músicas populares e incentivaram os estúdios a investirem nas trilhas sonoras, evidenciando uma novo período do cinema. Desde então a música seria um produto de lucro e de fácil comercialização para os estúdios e gravadoras.
A questão do blackface é outro importante aspecto que chama atenção no filme. A estereotipagem dos negros pelos brancos teve origem nos shows de minstrel no século XIX e continuou se propagando pelas demais formas de artes como os shows de vaudeville, da Broadway e também no cinema. O personagem de Al Jolson revela esse preconceito racial da sociedade americana  e dos estúdios cinematográficos que não contratavam negros. Quando Jack está nos palcos ele representa um cantor negro e por isso ele pinta a cara de preto, deixando a parte perto da boca sem tinta para que os lábios fiquem mais grossos (uma forma altamente caricata de representar o negro, mas muito comum nas primeiras décadas do cinema). O momento onde fica mais evidenciado o blackface é na cena que Al Jolson canta Mammy.

Todas essas considerações tornam esse filme memorável. O Cantor de Jazz merece ser lembrado por suas inovações técnicas, mas também, por ser um marco na inserção de musicas populares nos filmes, pelo retrato impregnado de uma sociedade tradicionalista e arcaica, e por ser uma parte da história do jazz, ser um ponta pé para sua ascensão nas próximas décadas. O primogênito do gênero musical.

Um comentário:

Anônimo disse...

Spike lee fez um filme que fala sobre isso de atores brancos pintando o rosto pra parecerem negros. só que nesse filme um ator negro de verdade Damon Wayans(da série Eu,a patroa e as crianças)é que se pinta de negro pra reforçar a idéia de discriminação racial e incomodar a platéia!Marcos Punch.