quarta-feira, 29 de agosto de 2007

"Faça a coisa certa" por Marcílio Lopes


Wake Up.
Spike Lee é um pastor. Pastor de ovelhas negras, com o perdão do trocadilho. Carrega todos no cerne da minoria passional, em que os Black niggers tem de se unir contra o poder, contra a opressão, contra tudo, seja lá o que tudo signifique. A comunidade se agita. É calor, muitos não têm emprego, outros buscam apenas uma maneira de se divertir. O bairro é o Brooklin, New York City. Nele vive uma comunidade não pacífica, que luta entre si e contra a “opressão” em um sem fim de vagos discursos.
Uma juventude que pouco estuda, um pai de família que entrega pizzas nas horas vagas da conversa, um velho alcoólatra e três desocupados. Todos negros, todos reclamantes da realidade e dos brancos ‘azedos’. No mesmo bairro, Sal vende pizzas. Há 25 anos, Sal trabalha. Há 25 anos vende pizzas, alimenta crianças, jovens e velhos do Brooklin. Cobrando, lógico. Não é Cuba, até porque o máximo que Sal poderia vender em Cuba seriam bananas fritas, e por um preço governamental. Ainda assim, Sal se identifica com o bairro, embora alguns niggers pareçam ser contra a lógica capitalista de que quem vende e aquele que compra são dois lados da moeda do simples contrato de venda e compra. Para alguns, Sal ficou rico quase que explorando os negros do Brooklin. Embora Sal trabalhe, e muitos deles não.
A maior parte do bairro, contudo, gosta de Sal. Ele é um branco do bem, quase um negro de alma branca para os racistas do caso inverso. Os filhos dele, contudo, são complicados. O mais velho é um racista convicto. Embora o filho de Sal tenha vergonha e raiva de trabalhar para pessoas mais pobres que ele, o diretor do filme tenta mostrar para o espectador que os racistas são na verdade brancos com inveja dos negros, eles querem ser da cor do Prince e de Michael Jordan. O mais novo é simpático por natureza, gosta das pessoas independentemente da cor, mas é facilmente influenciado pelo seu segmento social e se deixa levar pelos racistas em sua volta, vendo os negros com receio (vide totalmente seu irmão).
Possuir fotos de ítalo-americanos na parede. Sal tem todo o direito. Se quisesse colocar fotos de Cristina Aguilera, muito embora ele sendo acusado de pedofilia pela data do filme, também o poderia. Mas dois niggas do rap não concordam. É racismo, Sal vive em um bairro negro, sobrevive ganhando dinheiro às custas do povo de lá. Uma lógica tão comum quanto a de exigir que um nigga pobre que trabalhe num bairro de branco fale ou se vista de maneira diferente, se assim convir aos leites azedos. Spike Lee reproduz a lógica centenária do racismo barato. Ainda mais quando os niggas vão arrumar confusão com Sal e - após uma briga começada por eles - um deles é morto de maneira covarde pela polícia. A população revoltada, incluindo aí Mookie, funcionário que conhece a inocência de Sal na tragédia, destrói a pizzaria em protesto, e ameaçam ainda a loja ao lado, de um coreano. Faça a coisa certa, haja como um animal irracional, ou então perceba que racismo é racismo mesmo se invertendo as cores do tabuleiro. Mas aí não seria Spike Lee, ou outras minorias que não percebem que para se ir contra o racismo é preciso acabar com o complexo de perseguição e - antes de tudo - com a vontade de perseguir.
Wake Up.


Referências Bibliográficas:

SODRÉ, Muniz. Por um conceito de minoria. In: PAIVA, Raquel; BARBALHO, Alexandre (Orgs.). Comunicação e Cultura das Minorias. São Paulo: Paulus, 2005. p. 11-14.

PAIVA, Raquel. Mídia e Política de Minorias. In: PAIVA, Raquel; BARBALHO, Alexandre (Orgs.). Comunicação e Cultura de Minorias. São Paulo: Paulus, 2005. p. 15-26.

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