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sexta-feira, 24 de junho de 2011

"Cidade das Sombras", por Victor Ryan Borges


Cidade das Sombras (Dark City) de 1998 foi um filme pouco visto na época de seu lançamento, e isso é uma pena, pois ele poderia ter sido tão influente quando Matrix lançado apenas um ano depois. Ele é o que podemos chamar de Neo-noir numa fusão com filmes de ficção científica que não deve nada a Blade Runner, grande expoente dessa mistura que transpõe as convenções do filme noir para uma cidade do futuro, apesar de Blade Runner ter uma pegada Cyberpunk.

O filme conta a história de John Murdoch (Rufus Sewell) um homem que acorda sem memória de quem é ou de como chegou ali e acaba sendo perseguido por um grupo de “homens” com poderes especiais. Na verdade eles são uma espécie de alienígena que controla essa cidade formada de uma amálgama de diversos períodos da América dos anos 30 até os 70. Os “Estranhos” como são conhecidos tem diversas habilidades especiais, entre elas reviver mortos, realização de experiências com memória (temática que o filme divide com Blade Runner) para assim entende-los e também o poder de modificar a cidade fisicamente enquanto todos os seres humanos dormem.

Murdoch se envolve numa trama onde ainda fazem parte sua esposa que ele não vê a três semanas, Emma (Jennifer Connely), um cínico inspetor da polícia chamado Bumstead (William Hurt) investigando o assassinato de prostitutas e um médico, Dr. Schreber (Kiefer Sutherland) envolvido com os Estranhos.

Após descobrir que tem alguns dos poderes dos Estranhos, Murdoch sai em busca de pistas sobre seu passado e acaba descobrindo que é de uma pequena cidade costeira chamada Shell Beach. Ele então parte a procura da cidade apesar de nenhum outro personagem ter a informação correta de como chegar lá. Os estranhos ficam cada vez mais preocupados por um humano possuir os mesmos poderes que eles e injetam as memórias de Murdoch num deles no intuito de encontrá-lo. Murdoch acaba encontrando Bumstead no caminho que reconhece a inocência dele e deseja saber a verdade sobre a cidade. Os dois então se reúnem com Dr. Schreber que explica a verdade sobre os Estranhos e como eles são uma raça em extinção que procuram uma forma de sobreviver através de experiências com seres humanos.

O trio então decide ir a Shell Beach mas acabam encontrando apenas um outdoor no fim da cidade. Frustrado Murdoch abre um buraco na parede que revela que eles não estão na terra e sim num habitat espacial. Os Estranhos aparecem e acontece um confronto onde um deles é sugado para o espaço junto com Bumstead. Eles acabam levam Murdoch refém para ter a memória coletiva deles injetada e assim dar fim nas experiências e salvar sua raça.

O Doutor acaba traindo os Estranhos e injeta as memórias de Murdoch, logo após esse incidente ocorre uma batalha entre Murdoch e o líder dos Estranhos que acaba sendo derrotado. Murdoch após descobrir que Emma não tem mais as memórias que eles viveram juntos decide recriar uma Shell Beach dentro do habitat artificial e dar lhe novas memórias para recomeçarem seu relacionamento.

Cidade das Sombras é um filme que apresenta uma atmosfera bem sombria mas nem por isso perde o foco no desenvolvimento de personagens humanos para contar sua história. Ele usa diversas influências notórias entre elas o Noir do seu visual e características de alguns personagens, alguns aspectos góticos derivados do filme anterior do diretor (O Corvo, 1994), Expressionismo Alemão e o pesadelo Kafkiano de viver uma situação sem saída. Alguns críticos também leram o filme como espécie de alusão ao mito da caverna de Platão onde os habitantes da cidade são prisioneiros sem saber e Murdoch é o único a escapar tal qual como na caverna.

A cidade em si do título é uma criação interessante por não ter um lugar específico no tempo e espaço. A sua mais forte influência são os filmes do Expressionismo Alemão como Metropolis, M e Nosferatu. A influência de Metropolis é tão grande que pode ser sentida na arquitetura da cidade, comportamento dos humanos e no tom da película.

Lembrando também de Matrix que foi comentado no início desta resenha, ele foi filmado no mesmo estúdio Australiano e chegou a utilizar alguns sets de Cidade das Sombras na sua produção. Entretanto as comparações não param por aí, fotografia, atmosfera e parte da plot do filme são similares. Outros filmes que também apresentam similaridades são Brazil (1985) de Terry Gilliam e The City of the Lost Children (1995) de Jean Pierre Jeneut.

Cidade das Sombras é um filme extremamente derivado de outros trabalhos mas não se envergonha por conta disso, o próprio diretor reconhece alguma dessas influências como cruciais para a concepção do filme. O resultado final é algo muito maior que soma de suas partes.

sábado, 30 de abril de 2011

No Silêncio da Noite (1950), por Victor Ryan Borges


No Silêncio da Noite (1950) de Nicholas Ray é o que podemos chamar de um filme atípico.Apesar de ser considerado por alguns um filme de drama ele é um Noir que mistura diversas características dos dois gêneros se é que podem ser assim chamados criando um resultado inusitado.

O cínico personagem interpretado por Humphrey Borgart é em si um primeiro grande diferencial do filme. Conhecido pelo nome de Dixon Steele, ele é um roteirista de Hollywood sofrendo writer’s block, é paranóico e tem sérios problemas de temperamento. Já em sua ocupação vemos que este Noir não segue a “regra” máxima do gênero onde o personagem principal é um investigador privado ou da polícia.

Logo na primeira cena do filme vemos Dixon tentando arrumar confusão com um desconhecido no transito, já assim mostrando ao público como ele é. A história então começa a se desenvolver a partir daí. Ele segue para um encontro com seu agente e um diretor onde então lhe oferecem a oportunidade de adaptar um livro. Como o mesmo precisa trabalhar ele aceita sem pensar muito e pede a ajuda de Mildred Atkinson, uma secretária que estava no mesmo local que ele para lhe contar a história do livro porque ele está com preguiça de ler. Dixon a leva para sua casa claramente com outras intenções, que apesar de tudo acabam sendo abandonadas depois que a mulher conta a história do livro fazendo com que ele fique cada vez mais impaciente e indisposto.
Outro ponto importante é que logo quando Dixon chega com Mildred ele esbarra em Laurel sua vizinha e a tensão sexual que existe entre os dois é clara. Sua atenção esta muito mais voltada para a sacada de Laurel do que para Mildred enquanto a mesma conta a horrível história que ele se comprometeu em adaptar.

Ele então lhe dá o dinheiro para um taxi e Laurel vê os dois se despedindo. Na manhã seguinte Dixon é informado que a jovem foi assassinada e ele é o principal suspeito. Apesar de tudo isso Dixon não consegue conter seu cinismo e frieza deixando assim o
chefe de policia ainda mais desconfiado da sua inocência.

Os policiais chamam Laurel, para depor e ela conta tudo que viu, inocentando assim Dixon. Laurel não é o que pode ser chamada de femme fatale original, ela está mais para o papel de anjo salvador para Dixon, apesar de tudo ela conta com uma personalidade forte e é extremamente decidida. Dixon fica apaixonado e acaba engatando um relacionamento com ela e tudo parece ir às mil maravilhas. O bloqueio criativo desaparece, assim como as brigas sem sentido. Laurel se torna sua musa e salvadora, tomando conta de tudo na vida dele, desde datilografar as páginas do roteiro a preparar o café da manhã. Ela também alimenta grandes sentimentos pelo menos dizendo diversas vezes que o ama e não tem dúvidas quando a inocência dele.

Claro que este cenário não iria durar muito. Laurel é então chamada mais à delegacia. Ela fica nervosa por desconfiarem de Dixon e a sombra da dúvida começa a ser crescer em sua mente, o clima de paranóia tão presente nos filme Noir desde período então começa a ficar cada vez mais evidente.

Chega o momento então que Dixon estoura de fúria devido a um comentário da mulher de seu amigo e sai vagando pela noite, retornando as suas origens em busca de confusão. Ele acaba espantando um jovem motorista da na estrada, chegando muito perto de cometer um assassinato. Este comportamento errático faz com que Laurel acabe certificando-se de que ele é um assassino. Ela então decide fugir, mas é tarde demais, Dixon acaba então lhe propondo em casamento.

No que toca ao final do filme, em terminado momento Dixon acaba tornando-se ainda mais violento, a ponto de se tornar um perigo para aqueles em volta dele. No clímax das revelações ele acaba chegando muito perto de assassinar Laurel para só então ser inocentando por uma ligação telefônica.

Entretanto é tarde demais, este é um final trágico, sombrio. Mostra a todo mundo que o amor não supera todas as adversidades, que quando a sombra da dúvida é plantada o mesmo pode acabar não florescendo.

Essa, segundo dizem, era uma visão de mundo do próprio Nicholas Ray, um homem que vivia no meio de tudo isso, da jogatina, drogas, álcoo e femme fatales, em suma um homem que vivia afundado no próprio universo que ele expunha nas telas de cinema. Também se especula que o temperamento do Dixon era inspirado no do próprio Ray que sempre estava envolvido em brigas com estúdios e pessoas da indústria.

O filme não toca no tema da Cidade como personagem, onde existem vícios e perigos a cada esquina, pelo menos não de forma clássica. É possível que o espectador assista No Silêncio da Noite e nem note algumas locações que fazem parte do estilo L.A, como a delegacia, praia ou o conjunto de apartamentos em que vivem os protagonistas, apesar de todos esses elementos estarem bem presentes em filmes do gênero. O que é mais interessante para Ray é mostrar como agiam alguns personagem da Hollywood daquela época, com agentes, atores fracassados e roteiristas a beira de um ataque de nervos por não conseguirem mais trabalhar no pós Segunda Guerra Mundial. É um filme muito mais movido pelos seus personagens e dramas pessoais do que maquinações de plot muito comuns na maioria dos outros Noir.

Também é necessária uma menção ao título original do filme, “In a Lonely Place”, que não apenas é dita numa frase em determinado momento do filme, mas é também em si uma afirmação sentimental de onde se encontra o personagem de Bogart no decorrer de sua vida e ao final de seu breve amor.

Após todo este panorama é possível afirmar que mesmo não sendo um Noir tradicional, No Silêncio da Noite acabou ainda assim tornando-se um dos filmes de maior referencia para o gênero e pro seu diretor.