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sábado, 2 de julho de 2011

L.A. Confidential, por João Vitor de Macêdo Pascoal


“A vida é boa em Los Angeles. É o paraíso na terra. Pelo menos é o que te dizem. Eles te vendem uma imagem. Eles a vendem pelo cinema, pelo rádio e pela televisão... Dá pra pensar que aqui é o jardim do Éden. Mas há problemas no paraíso e seu nome é Mayer Harris Cohen. Mickey C. para os fãs, figurinha carimbada de L.A... Mickey C. é a cabeça do crime organizado aqui. Ele domina as drogas, a extorsão, e a prostituição. Ele mata uma dúzia de pessoas todo ano. E, toda vez que sua foto sai na primeira página, é uma mancha na imagem de Los Angeles, porque como o crime organizado pode existir na cidade que possui a melhor polícia do mundo?”

Assim é narrado o início de L.A. Confidential. Filme que mostra a Los Angeles das estrelas de cinema sob outro ponto de vista. Com a prisão de Mickey C. o controle do crime organizado tem que mudar de mãos, toda história se desenrola para que se descubra à quem pertence essas mãos. A trama tem como personagens principais os detetives: Ed Exley (Guy Pearce), Bud White ( Russell Crowe) e Jack Vincennes (Kevin Spacey). Os três têm maneiras bastante distintas de trabalhar.

O detetive Exley é considerado muito “certinho” por todos os outros policiais, para ele tudo tem que estar dentro da lei. É promovido rapidamente, por denunciar outros policiais envolvidos em uma confusão ocorrida na delegacia, por isso passa ser odiado e visto como “dedo duro”. White é conhecido por sua brutalidade, não admite violência contra mulheres, por conta de sua mãe, que foi espancada até a morte quando ele era criança e enquanto ele era obrigado a assistir tudo. Por topar tudo para solucionar crimes, ele goza de prestígio entre os seus superiores, forjar provas e coagir suspeitos não são problemas para ele. Jack é um policial celebridade, ele recebe informações da revista Hush-Hush sobre celebridades que fazem algo ilícito e em troca permite que a revista fotografe as prisões. Ele também fica constantemente nos estúdios de uma série de TV policial na qual faz participações.

Respondendo a pergunta do começo do filme, para que haja crime organizado na cidade que possui a melhor polícia do mundo é preciso que a polícia faça parte do crime e é isso que esse três detetives de personalidades tão distintas vão descobrir, perceberão que tudo era um jogo de cartas marcadas, cheio de mortes e com um final surpreendente.

sábado, 30 de abril de 2011

No Silêncio da Noite (1950), por Victor Ryan Borges


No Silêncio da Noite (1950) de Nicholas Ray é o que podemos chamar de um filme atípico.Apesar de ser considerado por alguns um filme de drama ele é um Noir que mistura diversas características dos dois gêneros se é que podem ser assim chamados criando um resultado inusitado.

O cínico personagem interpretado por Humphrey Borgart é em si um primeiro grande diferencial do filme. Conhecido pelo nome de Dixon Steele, ele é um roteirista de Hollywood sofrendo writer’s block, é paranóico e tem sérios problemas de temperamento. Já em sua ocupação vemos que este Noir não segue a “regra” máxima do gênero onde o personagem principal é um investigador privado ou da polícia.

Logo na primeira cena do filme vemos Dixon tentando arrumar confusão com um desconhecido no transito, já assim mostrando ao público como ele é. A história então começa a se desenvolver a partir daí. Ele segue para um encontro com seu agente e um diretor onde então lhe oferecem a oportunidade de adaptar um livro. Como o mesmo precisa trabalhar ele aceita sem pensar muito e pede a ajuda de Mildred Atkinson, uma secretária que estava no mesmo local que ele para lhe contar a história do livro porque ele está com preguiça de ler. Dixon a leva para sua casa claramente com outras intenções, que apesar de tudo acabam sendo abandonadas depois que a mulher conta a história do livro fazendo com que ele fique cada vez mais impaciente e indisposto.
Outro ponto importante é que logo quando Dixon chega com Mildred ele esbarra em Laurel sua vizinha e a tensão sexual que existe entre os dois é clara. Sua atenção esta muito mais voltada para a sacada de Laurel do que para Mildred enquanto a mesma conta a horrível história que ele se comprometeu em adaptar.

Ele então lhe dá o dinheiro para um taxi e Laurel vê os dois se despedindo. Na manhã seguinte Dixon é informado que a jovem foi assassinada e ele é o principal suspeito. Apesar de tudo isso Dixon não consegue conter seu cinismo e frieza deixando assim o
chefe de policia ainda mais desconfiado da sua inocência.

Os policiais chamam Laurel, para depor e ela conta tudo que viu, inocentando assim Dixon. Laurel não é o que pode ser chamada de femme fatale original, ela está mais para o papel de anjo salvador para Dixon, apesar de tudo ela conta com uma personalidade forte e é extremamente decidida. Dixon fica apaixonado e acaba engatando um relacionamento com ela e tudo parece ir às mil maravilhas. O bloqueio criativo desaparece, assim como as brigas sem sentido. Laurel se torna sua musa e salvadora, tomando conta de tudo na vida dele, desde datilografar as páginas do roteiro a preparar o café da manhã. Ela também alimenta grandes sentimentos pelo menos dizendo diversas vezes que o ama e não tem dúvidas quando a inocência dele.

Claro que este cenário não iria durar muito. Laurel é então chamada mais à delegacia. Ela fica nervosa por desconfiarem de Dixon e a sombra da dúvida começa a ser crescer em sua mente, o clima de paranóia tão presente nos filme Noir desde período então começa a ficar cada vez mais evidente.

Chega o momento então que Dixon estoura de fúria devido a um comentário da mulher de seu amigo e sai vagando pela noite, retornando as suas origens em busca de confusão. Ele acaba espantando um jovem motorista da na estrada, chegando muito perto de cometer um assassinato. Este comportamento errático faz com que Laurel acabe certificando-se de que ele é um assassino. Ela então decide fugir, mas é tarde demais, Dixon acaba então lhe propondo em casamento.

No que toca ao final do filme, em terminado momento Dixon acaba tornando-se ainda mais violento, a ponto de se tornar um perigo para aqueles em volta dele. No clímax das revelações ele acaba chegando muito perto de assassinar Laurel para só então ser inocentando por uma ligação telefônica.

Entretanto é tarde demais, este é um final trágico, sombrio. Mostra a todo mundo que o amor não supera todas as adversidades, que quando a sombra da dúvida é plantada o mesmo pode acabar não florescendo.

Essa, segundo dizem, era uma visão de mundo do próprio Nicholas Ray, um homem que vivia no meio de tudo isso, da jogatina, drogas, álcoo e femme fatales, em suma um homem que vivia afundado no próprio universo que ele expunha nas telas de cinema. Também se especula que o temperamento do Dixon era inspirado no do próprio Ray que sempre estava envolvido em brigas com estúdios e pessoas da indústria.

O filme não toca no tema da Cidade como personagem, onde existem vícios e perigos a cada esquina, pelo menos não de forma clássica. É possível que o espectador assista No Silêncio da Noite e nem note algumas locações que fazem parte do estilo L.A, como a delegacia, praia ou o conjunto de apartamentos em que vivem os protagonistas, apesar de todos esses elementos estarem bem presentes em filmes do gênero. O que é mais interessante para Ray é mostrar como agiam alguns personagem da Hollywood daquela época, com agentes, atores fracassados e roteiristas a beira de um ataque de nervos por não conseguirem mais trabalhar no pós Segunda Guerra Mundial. É um filme muito mais movido pelos seus personagens e dramas pessoais do que maquinações de plot muito comuns na maioria dos outros Noir.

Também é necessária uma menção ao título original do filme, “In a Lonely Place”, que não apenas é dita numa frase em determinado momento do filme, mas é também em si uma afirmação sentimental de onde se encontra o personagem de Bogart no decorrer de sua vida e ao final de seu breve amor.

Após todo este panorama é possível afirmar que mesmo não sendo um Noir tradicional, No Silêncio da Noite acabou ainda assim tornando-se um dos filmes de maior referencia para o gênero e pro seu diretor.

Para onde vão os deuses? Por Wesley Prado


Sunset Boulevard. Podia ser apenas mais um endereço em Hollywood, uma estrada infestada por mansões de ricaços da indústria cinematográfica. Um lugar idílico, tranquilo demais para se viver do mais puro ócio que a riqueza excessiva pode proporcionar. Mas Billy Wilder decidiu que seria uma perfeita cena de crime. Tanto que já abre seu majestoso “Crepúsculo dos Deuses” com um cadáver boiando na piscina.

Curiosamente, o cadáver é o protagonista do filme, que oscila graciosamente entre o noir charmoso e o melodrama rasgado. Nosso herói é Joe Gillis (William Holden), um roteirista esforçado, porém sem sucesso, e que nos narra o imenso flashback dos fatos que levaram a sua morte, como manda um bom noir. O pobre homem, cujas dívidas o levam a artimanhas desesperadas, recorre a todas as possibilidades que conhece para postergar o fracasso definitivo. Depois de muito vai e vem, ele se vê fugindo da policia em plena Sunset Boulevard. Até que um pequeno acidente com o pneu do seu carro o introduz a uma parte do mundo que o tempo esqueceu.

Aqui, Hollywood começa a ser cindida em territórios opostos. De um lado, a lógica do novo cinema, sonorizado e colorido, moderno, com estúdios grandiosos que começam a despertar como gigantes capitalistas a engolir talentos, o progresso inevitável do caráter urbano. Do outro, uma mansão decadente, “uma casa velha como a velha de Grandes Esperanças”, símbolo de um poder enferrujado e barroco, pertencente a uma estrela apagada do cinema mudo.

Eu disse apagada? Não, não senhor, que Norma Desmond não me ouça, ela ficaria furiosa! Outrora uma diva do cinema, Norma (Gloria Swanson) vive um triste e solitário fim de carreira, porém sem perder a aura de grande estrela, contando apenas com o apoio de Max (Erich Von Stroheim), seu fiel mordomo e protetor. Naquela mansão desolada, com a piscina já cheia de ratos, é que nosso herói esfarrapado irá encontrar a solução para seus problemas financeiros.

Gillis vê a oportunidade única de usar seus talentos como escritor e tirar o pé da lama, numa só tacada. Norma, pretendendo voltar aos holofotes, o contrata para reescrever um roteiro seu, um projeto que ela vem escrevendo há anos e onde ela fará o papel principal. Para executar tal tarefa, ela convence Gillis a morar em sua mansão. Daí em diante, Norma leva nosso herói literalmente no bolso. Sua liberdade acaba no exato momento em que “assina” o pacto com o diabo. Aliás, mais certo seria vampira ou fantasma. Norma guarda o resquício sobrenatural das criaturas amaldiçoadas, presas a uma vida passada que não oferece nenhum futuro. Doente de si mesma – sua casa é repleta de quadros de quando era (realmente) famosa – Norma vive de interpretar a si própria, num reprisado momento de sucesso.

É em Norma que os elementos do melodrama mais se constituem, graças à atuação propositadamente exagerada de Gloria Swanson. As expressões marcadas demais e o gestual antinatural são celebrações à estética do cinema mudo, onde os atores interpretavam caricaturalmente, já que o público precisava entender o que se passava na tela sem uma única troca verbal. Quando está feliz, Norma exulta em cena, pura soberba. Quando triste, se afoga em lágrimas e pedidos de perdão inimagináveis. “Grite comigo, me bata, mas não me odeie”, ela chega a dizer para Gillis, num momento crucial da trama.

Quanto a Gillis, o contraponto noir, ele é um herói controverso. Foge inclusive do estereótipo do detetive, tão caro ao gênero. Apesar de guardar características do noir, como o cinismo e o sex appeal, Gillis está mais para o malandro, se aproveitando da loucura de sua “mecenas”. É curioso ver como Wilder constrói sua narrativa através de personagens tão “cinzentos”, onde os limites do certo e errado não caem bem para nenhum deles. Nem mesmo a coadjuvante Betty Schaefer (Nancy Olson) escapa, uma profissional de bastidor que se apaixona por Gillis ao longo da trama, estando noiva de um ator que é grande amigo do roteirista.

Retomando a personagem de Norma, ela é apenas um dos detalhes de outra forte característica desta obra-prima de Billy Wilder: a metalinguagem crítica do cinema. A todo o momento somos lembrados que o filme se passa em Hollywood, a Meca do cinema, mesmo que poucas vezes se faça uso desse distrito de Los Angeles como cenário. Talvez uma estratégia compulsória, já que Hollywood, diferentemente de New York, Paris, Londres e Rio de Janeiro, não tem uma marca visual representativa, algo que nos traga à memória só de olhar (exceto pelo famoso letreiro branco em Mount Lee, que por pressão popular, escapou de ser demolido pela especulação imobiliária). Hollywood está lá nas mansões caras e aristocráticas, nos estúdios da Paramount, nos cenários falsos dos filmes. A urbanicidade de Hollywood é rara e indistinta, restando a ideia (ilusória?) de que todos na cidade são “gente de cinema”, e portanto a própria cidade é um enorme cenário a se realizar apenas nas películas.

A metalinguagem de “Crepúsculo dos Deuses” é tão forte que até figuras tradicionais do cinema na época aparecem interpretando a si mesmos, como o diretor Cecil B. DeMille e o ator Buster Keaton. Porém, Wilder usa da metalinguagem não apenas para um cinema do “como fazer”, mas para criticar a crueldade industrial que já naqueles tempos afetava este campo artístico. Muitas estrelas do cinema mudo, assim como Norma, foram esquecidas na era seguinte, tornando-se apenas páginas na história. Páginas respeitáveis, mas que não tiveram o gran finale digno. A cena que melhor ilustra esse olhar da indústria cinematográfica sobre si mesma é a que Norma visita um dos estúdios da Paramount para ter uma conversa com DeMille. Enquanto está sentada numa cadeira, esperando, um holofote é colocado sobre ela. Como mágica, os atores e técnicos presentes no local percebem que estão diante de uma lenda vida de seu tempo e de sua arte. Correm ao seu encontro, para idolatrá-la, o reconhecimento tácito de sua contribuição para o cinema. Mas tirada a luz, o encanto se acaba, os admiradores retornam aos seus afazeres. A deusa perdeu sua divindade. Restou uma pobre mortal, iludida, descartada pela arte que tanto ama.

Numa trama onde há espaço para o melodrama e o noir conviverem em certa harmonia, com grandes toques metalinguísticos, podemos dizer que Wilder dirigiu muito bem seu filme. “Crepúsculo dos Deuses” é uma obra inteligente e marcante, do tipo que faz falta no cinema contemporâneo mais comercial. Ao mesmo tempo em que homenageia o passado da Sétima Arte, critica sem medo os rumos do novo cinema que se operava no pós-guerra. Seu desfecho é no mínimo perturbador, onde uma Norma arrasada mentalmente desce as escadas, vivendo um simulacro de seu trabalho. Agradecendo a presença de todos, inclusive aos espectadores do filme, se referindo a aqueles que estão no “escuro da sala” ao apontar para nós, Norma se aproxima da câmera. E nesse close up, ela se esvai, indo de encontro ao seu crepúsculo derradeiro. Mas para onde vão os deuses após seu crepúsculo? Para dentro de nós, viver eternamente em nosso imaginário, como lembranças de uma era mitológica.