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domingo, 10 de agosto de 2014

"My fair lady", por Mariane Béco


 “My Fair Lady” de 1964 é uma adaptação da peça Pigmaleão de George Bernard Shaw, que antes de virar película esteve em cartaz na Broadway. O filme conta a história de Eliza Doolittle, vivida por Audrey Hepburn, uma vendedora humilde de flores que deseja entrar para a alta sociedade londrina. Para isso, terá aulas com Henry Riggins, interpretado por Rex Harrison, um estudioso de fonética que é desafiado pelo amigo, o Coronel Pickering, a transformar Eliza em uma jovem de alta classe. A trama se desenrola focada nas aulas, e na relação perturbada entre a aluna cabeça dura e o professor arrogante, hora mostrando a alta classe, hora a classe mais pobre. Também aparecem outros personagens, como o pai de Eliza que se orgulha de não trabalhar, e a governanta de Riggins que é solidária à jovem. No final, Eliza consegue se portar no Baile da Embaixada como uma verdadeira “lady”, mas o relacionamento dela com o professor não fica bem esclarecido.
            Apesar de Audrey Hepburn ter conquistado o papel, era esperado que a protagonista fosse interpretada por Julie Andrew, que além de talentosa e experiente em musicais, dava vida à Eliza na Broadway e contracenava com Rex Harrison, que representava o professor no teatro e manteve o papel no cinema. A ficha técnica de “My Fair Lady” é repleta de estrelas da época. O que contribuiu para os oitos Oscar que ele ganhou na premiação de 1965, incluindo o de melhor filme, ator, figurino colorido e direção. O diretor George Cukor ganhou o troféu pelo seu trabalho original e o uso de equipamentos e ângulos inovadores.
O filme é dinâmico, com trocas de cenas rápidas e tem uma pitada de humor e de romance, mas se afirma no gênero musical pelas suas longas cenas de músicas e pelos figurinos bem elaborados e realistas. As músicas são bem colocadas e densas, fugindo um pouco do que era utilizado normalmente.
Outra característica marcante são as cores. Elas estão presentes em todas as cenas, nas roupas, na cidade, nas flores e nas frutas. A escolha da paleta de cores e a forma como elas foram empregadas são determinantes na composição dos personagens. As cores sóbrias representam a cidade com seus prédios, seu clima e sua poluição, e a população mais pobre, que trabalha nas ruas, que se suja. As cores alegres marcam a alta sociedade e o luxo que a cerca.
As gravações do filme foram todas feitas em estúdio, inclusive as externas que mostram as ruas da cidade. Os cenários buscavam expressar um tom realista, por meio de objetos característicos e bem colocados em cada cena. Como os lustres no salão do Baile da Embaixada ou os montes de areias em meio à construção que o pai de Eliza passa após ser expulso do bar. A própria Londres foi tipicamente retratada como uma cidade no início do século XX, cheia de prédios, obras e aspecto depressivo.

“My Fair Lady” é, como muitos filmes da década de 60, um filme transitório. É um musical, com músicas, danças, cores e figurino, mas deixa de lado as fantasias e os excessos que antes caracterizavam esses gêneros. O ilusionismo marcante dos anos 50 começa a ser substituído pela busca da realidade ou pelo “efeito do real”. Esse meio termo entre uma diegese fantasiosa e o real foi um ponto chave do filme e contribuiu para seu sucesso

sábado, 30 de abril de 2011

Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s), por Eduardo O. Henriques de Araújo


Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961) inicia com uma cena pacata: um plano amplo da 5ª avenida, ao raiar do dia, põe em fusão o cinza do céu nublado com o do asfalto e das construções da cidade “Capital do Mundo”. O trabalho do diretor Blake Edwards narra a relação inusitada entre Holly Golyghtly (Audrey Hepburn), uma prostituta, com o romancista amador Paul “Fred” Varjak (George Peppard). O filme é uma adaptação do romance homônimo de Truman Capote, cujo roteiro foi elaborado por ele e George Axelrod.

O silêncio, a melancolia e a pouca atitude cromática da cena inicial são transportados para um contraste estabelecido pela aproximação de um táxi amarelo – símbolo de Nova York e da necessidade de se desbravar diariamente as imensidões dessa cidade - e, em seguida, pela chegada da personagem Holly à vitrine da Tiffany’s com suas jóias brilhantes e seus veludos coloridos. Essas contraposições vêm por construir a dualidade nova-iorquina: tanto fria e viciosa quanto reluzente e deslumbrante.

Holly é uma garota que recebe 50,00 dólares para "entrar no banheiro" de senhores distintos da alta sociedade nova-iorquina. Com uma visão por vezes pueril e ingênua, ela busca viver da melhor forma que pode sonhando em casar-se com um milionário e obter uma vida de diva das colunas sociais. Em meio aos grandes monumentos de fascínio da cidade atrelados a esse sonho, é a joalheria, que nomeia tanto a obra literária quanto a cinematográfica, o grande objeto de desejo da personagem. A Tiffany’s atua como uma espécie de personagem, haja vista a sua manifestação no imaginário da jovem interpretada por Hepburn, assim como por sua imanente atuação no desenvolvimento da trama. A loja explicita o vício urbano do consumo enquanto meio de satisfação dos anseios (quiçá carências) pessoais. Neste fascínio consumista trazido na obra, vêm imbricadas as ditaduras da moda e dos sinalizadores de status social. É exatamente esse universo de aparências que conduz a personagem Holly ao longo do filme. Holly é uma solitária prostituta que almeja mudar sua condição de vida por meio de um casamento no Upper Est Side de Manhattan. Enquanto tal sonho não se realiza, ela produz uma atmosfera de devaneios que amenizam as insatisfações de sua realidade em uma busca pela sensação de felicidade – mesmo artificial.

Quando o escritor amador Paul Varjak aparece, inicia-se uma amizade e uma paixão que contrariam a ambição de Holly de enriquecer. Ele, a quem ela insiste chamar por “Fred”, é bancado por uma socialite, de quem é amante. De início, “Fred” tem dificuldades em compreender o mundo paralelo de Holly - sua vizinha. As questões morais do roteiro, emprestadas do romance original, trazem à baila múltiplas formas de se prostituir o corpo e o intelecto. Assim como a jovem interpretada por Audrey prostitui-se corporeamente em finas festas do High Society, Paul retribui com favores sexuais os incentivos à sua atividade literária – prostituindo seu conhecimento. A experiência dela é confrontada com a inocência do escritor no que cerne às realidades da vida, mas é a pureza da jovem o que se sobressai à visão corrupta das atitudes de Paul. Noutras palavras, tem-se abordada a prostituição das relações sociais e a cidade como o seu fomento e o terreno: o dar para receber em troca.

Moon River, tema do filme, é interpretada por Hepburn em uma das cenas mais belas do filme – quando Paul compreende a essência pura e sonhadora de Holly que apenas deseja uma vida mais bonita de se viver. A canção conclama um mundo melhor, uma vida mais plena que, todavia, encontra-se distante, além de um rio largo, o qual ela espera algum dia poder atravessar. Chegar à outra margem e adentrar a realidade sonhada por Holly implica negar-se à paixão que sente por seu vizinho e perpetuar a sua prostituição em relações sociais rentáveis. Para Paul essa travessia pode significar seu amor por Holly ou a sua ascensão editorial. É a cidade como palco da luta do homem com sua essência e suas ambições. Em que esquina reside a felicidade?

"My Fair Lady", por Evan Diniz


Um misto de flores e cores, beleza e elegância, charme e poder. Essas são as impressões que podemos absorver, enquanto somos apresentados a sociedade burguesa londrina do início do século XX de Minha Bela Dama (My Fair Lady). Apesar das flores não serem protagonistas do filme, sua natureza delicada e multicor reflete na construção da Londres do filme e de toda a mise en scène, dando não só o aspecto visual, como também participa na síntese de valores, reflexões desse lugar onde a história se passa. Como pode ser observado no momento em que várias pessoas da burguesia estão no Covent Garden após uma festa. Em plano geral, vemos o ambiente acinzentado e neblinado típico da urbanização moderna contrastando com o colorido das roupas da alta sociedade e dos frutos, verduras e flores dos vendedores pobres. O lugar possui uma textura realista, desde a preocupação com a réplica de estúdio, como a ambientação que remete a todo um conjunto de imagens da atmosfera urbana pesada, viciosa, obscura e perigosa. Mas, que é invadida pelos personagens e pelos objetos de cena que se posicionam em profunda organização estilística.

No filme temos vários conceitos entrelaçados sobre a cidade retratada pelo filme. Eliza é uma pobre vendedora de flores que descobre uma chance para mudar de vida: aprender a falar bem seu idioma. Desse modo ela estaria apta a se tornar uma dama e saltar de sua classe social. A busca pelo aprendizado de Eliza nos remete ao primeiro momento da visão da cidade como um lugar do saber, de progresso e de ascensão social. Essa sabedoria se concentra na sociedade rica que se mantém intocada, suprema e que “with a little bit o’ luck”, Eliza consegue penetrar. Esse saber é como um sonho da classe pobre de Londres que mesmo retratada sem o molde realista, possui a motivação essencial de atingir a burguesia. É importante também poder diferenciar e definir o tipo de saber o qual motiva a personagem principal, e que torna Eliza uma dama.

Totalmente diferente do conhecimento circunstancial o qual é refletido pelo Sr. DooLittle (pai de Eliza) e da Sra. Pearce. Alfred P. DooLittle é um miserável que sabe como viver na cidade grande e como burlar as aflições que vivem os pobres doe Londres, ele em seu claro objetivismo possui o saber necessário de sobrevivência sem as grandes motivações. Não chega a atuar bem como um flanner daquela Londres, mas através dele emana o vício pela cidade, o reflexo do segundo momento que viveu a cidade moderna. Esses apontamentos são desenvolvidos principalmente na cena onde o Sr. Doolittle é expulso de um bar por querer beber sem pagar. Os amigos mencionam sobre trabalhar para ganhar dinheiro, mas o Sr. Doolittle recusa e demonstra cantando que prefere ter sorte para desfrutar das oportunidades sem ter que trabalhar como os outros. A performance é realizada no meio da rua que possui uma construção. Os personagens dançam e cantam em meio à obra, areia, canos e etc. Essa cena é uma das mais explicitas no sentido de promover a proposta de contextualização da modernidade.

Essa cidade que estava em constante evolução e renovação, cheia de oportunidades, mas também do desejo de consumismo para desfrutar da própria cidade, do trabalho como uma forma de ganhar dinheiro que se torna cíclica e viciosa, como por exemplo: trabalhar para beber. Isso adiciona novamente a textura realista que também é retratada no Covent Garden, porém totalmente embalada pelo artificialismo da produção.

Eliza se hospeda na casa do Professor Henry Higgins, um ambiente totalmente diferente do subúrbio londrino que ela morava. O Sr. Higgins é áspero, insensível e se preocupa muito mais sua aposta de ensinar Eliza do que com a própria Eliza, essa relação lembra um pouco a relação da sociedade e cidade. Higgins é para Eliza o que a cidade é para a classe pobre. Nele está concentrada a sabedoria, esperança e o sucesso, porém Higgins não se preocupa com Eliza do modo que a cidade, a burguesia não se preocupa com a população trabalhadora sendo eles (Eliza e seus semelhantes) objetos de uso para satisfação e progresso próprio. De qualquer modo a sociedade rica não é vilã do filme, do modo que a sociedade pobre não é vitimada, são partes integrantes que dão suporte a história principal. Os conflitos sociais aprofundados não são abordados de algum modo na narrativa e essas extrações que foram apresentadas foram pensadas de modo mais aprofundado. Mas em algumas cenas o discurso de sociedade vai ser visualizado claramente, como a cena do primeiro teste de Eliza como uma dama na corrida de cavalos. No lugar as pessoas vestem roupas monocromáticas, num ambiente de pura monotonia, mais especificamente retratada quando as pessoas observam a passagem dos cavalos. Na música entoada, aquele momento parece ser muito excitante e emocionante, porém vemos expressões e gestos apáticos, abrindo o discurso para pensarmos na burguesia como sociedade indiferente a diversos aspectos da vida ao seu redor, principalmente por estarem em um patamar onde a cidade icônica perde parte de sua majestade diante do poder individual da própria riqueza das pessoas. Eles já estão fundidos a todo iconicismo da representação da cidade, sendo eles mesmos e os
diferentes títulos entre a burguesia, pedaços do que seria a excelência principal.

O grande teste de Eliza é conseguir se passar por uma nobre no baile da embaixada, lá estarão as pessoas mais poderosas da sociedade. Seguindo os conceitos elaborados, pode-se dizer que esse baile reúne os mais poderosos ícones da alta sociedade moderna de Londres, então ao se passar por um deles Eliza está chegando ao ápice das plataformas de poder, se fundindo então com a majestosa representação de cidade.

Chegando nesse estágio ela prova que também é parte integrante dela e que ao invés de ser sucumbida, sucumbe ao seu redor, tornando-se assim indiferente ao passado miserável e todos os problemas de busca e vício enfrentados pela classe pobre. Então, quando Eliza volta a Convent Garden ninguém a reconhece, a identificam, ela sente falta e nostalgia de seu tempo de busca. Eliza escolhe, portanto, viver com Higgins que a tratava como Londres a tratava antigamente, mas dessa vez como uma dama, mas não como um nobre indiferente e sim como uma representação de força e superação, a mesma que tinha quando precisou superar a cidade. Minha Bela Dama é um maravilhoso exemplo de um musical repleto de artifícios e constantes utopias, porém sua pouca textura realística dá grande espaço para refletir sobre a vida moderna urbana.