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domingo, 10 de agosto de 2014

"O Picolino, o diálogo que se dá na dança", por Aline Soares e Silva


O Picolino (Top Hat, 1935) pode ser enquadrado como uma das melhores imersões que se pode fazer, em se tratando de musicais. O filme, dirigido por Mark Sandrich, apresenta com leveza e humor o desenrolar de uma trama amorosa que se dá entre um dos casais que mais se destacam no gênero musical, seja pela sensibilidade com que dançam ou pela intimidade que adquiriram ao largo das parcerias que fizeram, Fred Astaire e Ginger Rogers são um dos elementos chave que fazem com que o Picolino seja tão memorável.

Seus personagens, Jerry Travers (Astaire) e Dale Tremont (Rogers), estão hospedados num mesmo hotel, em Londres, e iniciam seu flerte de maneira não muito amigável. Ao passo que Dale fica aborrecida, porém encantada, com Jerry, ele passa a ter olhos apenas para a moça e não resiste em conquistá-la.

Com um roteiro frágil de comédia, ainda que arquitetado e planejado em cima de conflitos que dão agilidade à trama e ao desencadeiam a confusão amorosa que é o grande plote da narrativa: Dale acredita que Jerry Travers é na verdade Horace Hardwick (Edward Everett Horton), marido de sua amiga Madge Hardwick (Helen Broderick).

E se o engano é a chave para toda boa comédia, ‘O Picolino’ não faz por menos. A resolução para esse desarranjo de identidades é amarrado até quase o desfecho do filme e fica a cargo do mordomo Bates (Eric Blore), a personificação nesse enredo do criado bobo e trapalhão da nova comédia grega.

O romance é o elemento que acompanhará todo o ritmo e o desenrolar de toda a intriga presente no filme. À medida que as personagens vão se apaixonando, aumenta também a intensidade e a intimidade com que dançam, a primeira cena em que se detecta o flerte mútuo “Isn’t this a lovely day”, dá a impressão de que o diálogo falado e até mesmo a música se tornam secundários, para em determinado momento serem substituídos apenas pela coreografia, na qual os corpos da dupla Asteire e Rogers desenvolvem no espectador um sentimento de pura contemplação ao amor que transborda a cada passo e sapateado.

Todavia, ao se avaliar a obra como um todo, percebe-se que a coreografia não é a única responsável pelo encantamento. Junto às composições de Irving Berlin adquirem outro significado, se posicionam como um arranjo harmonioso e decisivo para a construção da narrativa, atingindo talvez seu ápice com a composição que, possivelmente, pode ser considerada a mais marcante de todo o musical: “Cheek to cheek”. A música, além de ter sido posteriormente interpretada por Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, foi incorporada a outros filmes de destaque na história do cinema, tais como ‘À espera de um milagre’ e ‘A rosa Púrpura do Cairo’.


Por fim, é possível enquadrar “O Picolino”, na categoria de filmes em que não se toma uma parte pelo todo, onde não se elege como determinante a coreografia, ou o figurino, o cenário ou as canções isoladamente. Todos esses elementos se arquitetam e constroem um musical encantador, que realmente te atrai e te faz torcer para que dê tudo certo no final, porque, como bem diz Jerry Travers, “all is fair in love and war and this is a revolution”.

"Vamos dançar?", por Joana Claude Migeon


O interesse pelo musical Vamos Dançar?, de Mark Sandrich (1937), surgiu através do número dos protagonistas Fred Astaire e Ginger Rogers na música “Let’s Call The Whole Thing Off”. Conhecia a versão de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, e acabei encontrando a versão realizada no musical. Hoje, acredito que essa música é a que melhor expressa a mudança que ocorre com o casal – seja ela emocional, como na
relação deles - e evidenciam as diferenças que existem entre eles de modo poético. Essa canção, assim como “They All Laughed” e “(I've Got) Beginner's Luck” sintetizam a superação das diferenças entre seus personagens e anunciam a mudança no enredo do filme.

O musical traz a história de Peter P. Peters (Mr. Petrov) e Linda Thompson (Mrs. Keene). Ele é um astro do ballet que se apaixona e sonha em dividir o palco com ela. Ambos acabam se aproximando durante uma viagem para New York, mas a relação dos dois fica confusa no momento em que se espalha o rumor que eles se casaram. A ideia para o musical surgiu para testar uma “formula de sucesso” idealizada por Richard Rodgers e Lorenz Hart, na obra On Your Toes on Broadway (1936). O enredo dos dois trabalhos é bem semelhante. O conflito é o elemento que mais aproxima entre os dois. A problemática é iniciada pelo dono da companhia de ballet na qual Petrov trabalha, Jeffrey Baird, que critica o distanciamento do astro e seu interesse por transformar essa dança num elemento híbrido com elementos do sapateado. É também esse problema que irá unir novamente os protagonistas para ascender ao “grand final”com a canção que dá o nome do filme “Shall We Dance?”.

Além do diretor Mark Sandrich que é considerado melhor sucedido no filme Picolino (1935) - considerado o 15° melhor musical da história na lista do American Film Institute – a obra também conta com a colaboração do compositor George Gershwin, famoso maestro pianista na Broadway. Ele apreciava o jazz, blues e gostava de música francesa, como Debussy. Boa parte de seu trabalho ficou conhecido não somente por  causa do cinema, mas graças a cantores como Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Em Vamos Dançar?, todas as músicas foram concebidas pelo compositor.

Essa é a sétima vez que Fred Astaire e Ginger Rogers trabalham juntos. A parceria entre  dos dois iniciou em Voando para o Rio, de Thornton Freeland (1933), e manteve por  mais nove filme que ocorreram durante o período de 1933 à 1949. Todos os filmes foram produzidos pela RKO Pictures com exceção do último, Os Barkleys da  Broadway, de Charles Walters, que foi realizado pela MGM. Esse também foi o únco com cor (technicolor). Depois, ambos atores seguem por caminhos distintos. Astaire continua no estilo musical, com obras como Nasci para Bailar, de Norman Z. McLeoad(1950), até optar pelo drama no fim da carreira. Já Rogers toma essa decisão antes e abandona o gênero para seguir o drama. Sua participação no filme Kitty Foyle, de Sam Wood, rendeu o Oscar de melhor atriz em 1941.A RKO foi a produtora que investiu na série de filmes com o Astaire e Rogers e teve um grande retorno durante os anos de 1930. É após o lançamento de Vamos Dançar?, em 1937, que não obtém o retorno esperado que surgem os primeiros indícios da decadência da empresa, agregada a outros fatores como a segunda guerra mundial. O
contexto histórico também colaborou para uma retenção dos recursos, principalmente para o gênero musical, e o maior investimento para outras narrativas fílmicas, como o drama. A produtora é responsável pela realização do filme Cidadão Kane, de Orson Welles (1941), por exemplo.

Se antes, os filmes do gênero eram mais teatrais e tinham uma estética mais próxima do espetáculo, após a segunda guerra mundial, as demandas são outras e novas tendências surgem. Se em Vamos Dançar? existe uma história entre algumas pessoas, que não representam necessariamente um grupo maior, depois da década 1960, existe um aspecto social mais latente. West Side Story, de Jerome Robbins e Robert Wise (1961), é um exemplo desse “recurso” usado para atrair a maior atenção do público.

Outra diferença óbvia, mas perceptível é a movimentação da câmera. Até Cidadão Kane, mais ou menos, notamos uma menor ousadia no uso da fotografia. No musical de Mark Sandrich, notamos poucas variações nos planos. Normalmente a câmera é usada apenas como um olho que observa e que por vezes se aproxima e outras se afasta, mas quase sempre no mesmo eixo, no máximo dois. Não observamos plongée, por exemplo, ou cenas que priorizam a profundidade do plano. Isso muda significativamente depois.
A Noviça Rebelde, de Robert Wise (1965), já ousa mais nesses aspectos. A abertura do musical, com “The Sound of Music”, já traz elementos que não eram vistos antes. Além  dos recursos técnicos, há também a saída do estúdio para a locação. Claro, temos que considerar que o aparato técnico do musical de 1960 é maior, consequência de um investimento mais significativo.

Em contrapartida, filmes como Vamos Dançar? possuem uma maior valorização e tempo para os números musicais, favorecendo momentos que talvez não funcionassem tão bem na contemporaneidade. A abertura do filme com as sombras das bailarinas na tela preta e branca, por exemplo, é uma forma de introduzir o assunto de modo subjetivo e indireto. Outra brincadeira realizada por Astaire, que lembra a interação de Chaplin com o cenário, é quando ele joga com a sombra das maquinas do navio para New York.
Ele aproveita o som e a partir de uma postura formal, mas cômica, ele aproveita esse elemento para florear sua coreografia.

Outro aspecto interessante é a introdução dos negros no musical. Mesmo que por um intervalo pequeno de tempo, eles estão presentes em número de Astaire durante a viagem para América. Isso já mostra a mudança no cenário fílmico, no qual antes o espaço era apenas ocupado por brancos. Aqui, mesmo que em segundo plano, eles estão presentes e colaboram no ritmo e ambientação da música “Slap That Bass”.
O musical possui momentos diegéticos, como em “Shall We Dance?”, no qual os protagonistas trabalham realmente cantando e dançando e na cena contracena o númerofinal do filme. Já em outras sequências, há instantes não dietético, como em “They Can't Take That Away from Me”, quando eles estão atravessando de balsa e descem do carro para cantar em meio a neblina e com o plano de fundo New York.

O filme pode não ser a melhor obra do cineasta Mark Sandrich, mas é um trabalho significativo pela apropriação dos elementos e as referências utilizadas, citadas acima.A parceria Astaire-Rogers é o principal aspecto qualitativo desse musical.

sábado, 30 de abril de 2011

O Picolino (Top Hat), por Houldine Nascimento e Silva


Baseado em uma peça teatral de Alexander Faragó e Aladar Laszlo, basicamente é uma história sobre um dançarino estadunidense, Jerry Travers (Fred Astaire), que é convidado por um empresário chamado Horace Hardwick (Edward Horton) para protagonizar um espetáculo em Londres. Durante a estadia na capital inglesa, Jerry conhece a bela Dale Tremont (Ginger Rogers). Ele está sapateando num quarto de hotel, logo acima do da Srta. Tremont, o que a incomoda. A dama sobe até o andar em que Travers está para reclamar do barulho. Esse encontro desperta o interesse dele, que não desistirá até conquistá-la.

Dale havia recebido um convite de Madge (Helen Broderick), esposa de Horace, para ir a Veneza. Por uma confusão que se dá quando Tremont pede informação a um funcionário do hotel, ela confunde Horace com Jerry, o que faz com que parta imediatamente para a cidade italiana, que será local de mais trapalhadas.

Este é o quarto de uma série de dez filmes em que a dupla Astaire/Rogers contracena. Dirigido por Mark Sandrich, é uma história divertida, bem narrada, apesar de algumas inverossimilhanças, como a tentativa frustrante de se reproduzir a cidade de Veneza (o que é perdoável pela época em que foi realizado). Alguns questionam “O Picolino” pelo fato de ter sido feito durante a Grande Depressão e não se referir a isso, o que é pura bobagem. A verdade é que se trata de um belíssimo musical, sendo, inclusive, referência no gênero.

A fita ainda chega a dialogar com a comédia maluca, gênero típico dos anos 30-40, quando, a partir de um equívoco, se desencadeiam situações engraçadas. Ademais, é sempre bom ver o mestre da dança Fred Astaire em um de seus melhores momentos, junto com a habitual parceira Ginger Rogers, ambos esbanjando elegância (é incrível como eles fazem tudo parecer fácil).

Repleto de apresentações memoráveis, como a seqüência no hipódromo, sob a chuva, em que o casal dança ao som de “Isn't This a Lovely Day?”. Ou então o número de “Cheek to Cheek” na Veneza do estúdio, composições do saudoso Irving Berlin. Há, ainda, a presença de figuras excêntricas e, portanto, engraçadas como o mordomo Bates (Eric Blore), o estilista italiano narcisista Alberto Beddini (Erik Rhodes) e Madge, a mulher cínica.