quarta-feira, 29 de agosto de 2007

"Faça a coisa certa" por Gustavo Ferreira


Quando se assiste a “Faça a Coisa Certa”, de 1989, do Spike Lee, é impossível não sair do filme um pouco mais racista, a princípio; mas depois de pensar um pouco – porque sim, eu penso, às vezes, sobre os filmes a que assisto – a gente vê que o erro não é dos negros. O erro não é de uma raça ou de um grupo etnicamente homogêneo. Há negros bons e negros maus, brancos bons e brancos maus, coreanos bons e, bem, todos os coreanos são bons, o que responde ao fato de serem também bem sucedidos. Mau mesmo é o Spike Lee.
É difícil falar de como as minorias são representadas nesse filme que tão bem separa as pessoas pelo caráter, antes de separar por outro grupo qualquer. O Bairro é o Brooklin, e todo o contexto do filme é o contexto do bairro. Lá, naturalmente há milhares de negros. E os negros chamam aquele de seu bairro; eles são os donos ali, eles têm o poder, eles são hegemônicos. O “prefeito” do bairro é negro, o radialista é negro, e nomes de negros famosos são enumerados como algum mantra, como se a luta ou fama deles justificasse algo hoje. Por serem maioria, os vilões do filme são negros, que lutam por causas bastante imbecis, como forçar Sal, o dono de uma pizzaria, a colocar fotos de negros na “parede da fama”, em que só ítalo-americanos estavam representados, por vontade do dono, ítalo-americano. Um negro que não tinha mais o que fazer interpreta o nacionalismo de Sal como racismo e planeja um boicote à pizzaria – algo a que tem direito, ok, não o questiono, todos podem ser imbecis como quiserem –, mas acaba fazendo muito mais que isso, porque é canalha. Um canalha que seria igualmente canalha se fosse branco ou de qualquer nacionalidade, menos coreano, porque os coreanos são bondosos. Todos os dois.
As minorias, no micro-cosmos do filme (e me sinto um retardado usando “micro-cosmos” em um texto, mas parece melhor que “no universo do filme” ou algo do gênero. Céus, como é difícil manter o estilo! [Desculpem pelo grito, não se repetirá]), acabam sendo os trabalhadores, os honestos, os decentes, que ininterruptamente são abordados pelos maus, a maioria, com poder consolidado no bairro, e obrigados a fazer algo de que não gostam ou que não querem. Quando a maioria, má, encontra resistência na minoria, boa, a vingança é bruta, e só pode ser contida por uma maioria ainda maior – uma das poucas vezes em que um elemento externo ao bairro entra no filme –, representada pela polícia.
Parece que o pensamento de minoria em relação ao ambiente mais amplo (a cidade ou o país) traumatizou o grupo de negros do mal, que por isso se mantém, mesmo no ambiente em que eles são obviamente maioria e detêm todo o poder, na defensiva contra todos, por menores que sejam – até contra os pobres coreanos, coitados, que só querem trabalhar honestamente, e sofrem preconceitos raciais dos black-nigga-dark-skinned-badass malvadões: “aprende a falar inglês, motherfucker!!!”, grita o negão do rádio quando vai comprar pilhas, com cada uma das três interrogações recheada de ódio e trauma, e depois obriga a coreana gentil a recontar o número de pilhas que ele está comprando – 20! – e ver a validade delas, mui grosseiramente.
Subverte-se (e eis-me aqui chateado novamente com a escolha de palavras que tomo neste dia de pouca inspiração) o sentido de minoria no filme: dos grupos organizados e explorados, a minoria se torna indivíduo, dupla ou trio, que, apesar de possivelmente bem representados em nível nacional, não têm participação ou representação local. O filme parece levar a cabo a interpretação de minorias, ao último dos patamares, que exclui do critério minoritário os grupos organizados e entra pelo ambiente individual, e de como um indivíduo, por mais que tenha sua classe bem representada em todos os aspectos, pode não ser representado de forma alguma, porque as classes, as raças, as etnias são rótulos demasiado abrangentes em que as pessoas são inclusas, às vezes precipitadamente, de forma a se unirem contra um “inimigo comum”, que pode estar em qualquer lugar – é preciso estar sempre alerta –, como se fosse impossível que todos ganhassem, e como se as pessoas fossem obrigadas a defender os valores arbitrários impressos nesses rótulos – caso contrário um nigga não é mais um nigga, ele não consegue “stay black”, e se torna algo menos que um filho da puta (sem desculpas pela palavra. Quem vê esse filme sai contaminado pelos palavrões e, como quem gripa precisa espirrar, é preciso pôr fora essas más palavras antes que se tornem crônicas ou pneumônicas. Alguém tem um lenço?).
Essa individualização da minoria parece ser a principal contribuição do filme, pois rompe a idéia de grupo organizado, mostra matizes diferentes dentro do grupo, e individualiza os indivíduos, se me é permito falar assim, em um ambiente em que o pensamento de classe oprime mais que as próprias hegemonias, e se torna hegemônico, regendo as relações interpessoais. O filme mostra o fim a que levam os movimentos minoritários quando orquestrados por pessoas demasiado cegas pela própria opressão que sofrem. Além disso, o filme mostra bondade e maldade, superioridade e inferioridade, gentileza e brutalidade, em todo tipo de gente. Italiano bom, italiano nigga, italiano racista, nigga simpática, nigga violento, nigga pacifista. Por um momento parece que Spike Lee quis quebrar com o conceito mais imbecil que Marx legou, o da luta de classes; o de que pra que se ganhe alguém perde.
Mas naturalmente estou sendo bondoso com o filme, que não tem a intenção de dizer nada disso. Antes, o filme quer ser o contrário disso. Como é mostrada, a destruição da pizzaria parece algo decente, parece algo que tinha que ser feito, mesmo que o dono da pizzaria em nada contribuísse para a continuidade dos negros como minoria – Sal só estava fazendo o trabalho dele, sem atrapalhar ninguém. Spike Lee parece indecente querendo transformar brutalidade em legítima defesa, e só se percebe esse aspecto de legítima defesa quando se vê a – bonita, correta, damn right – frase de Malcolm X, que diz que violência em legítima defesa não é violência, é inteligência. Aquilo só não se aplica ao filme.
Faz-se necessário um breve spoil, então não leia os dois parágrafos que seguem se você quiser ver esse – péssimo – filme, que não recomendo, e recomendo que leia o resto da resenha, que tem muita opinião cheia de wit ‘n wisdom: O rapaz do rádio, que se chama Radio, se negava a abaixar o volume do som com que andava por aí, como retardado, mesmo dentro da pizzaria de Sal. Sal o expulsa da pizzaria por causa do som, mas ele não sai. Então Sal do the right thing, justificando o título na hora errada, acabando com aquela música do Public Enemy ao quebrar o rádio com um taco de beisebol – nada mais americano, hã? Acontece que Radio se irrita muito e tenta matar Sal. É isso. Ele tenta matar um homem por causa de um rádio. E não quer ser chamado de delinqüente. Como os negros são maus, não separam a briga – alguns, não tão maus, tentam separar, mas são poucos e não se esforçam muito –, sendo necessário que a polícia chegue e pum!, tire Radio, pelo pescoço, do pescoço de Sal. O trabalho policial é eficiente demais, e Radio acaba morrendo por resistir à prisão, estrangulado pelo cassetete do policial malvado. No cômputo geral, foi a vida de um pretenso homicida pela de um italiano trabalhador, a fair trade, ‘f may say.
Como a polícia matou Radio, e os policiais são white people, os negros decidem, em comportamento de manada, que o certo a se fazer é destruir a pizzaria do white man, Sal. Na verdade, o próprio Spike Lee, como Mookie, entregador nigga da pizzaria de Sal, tratado como filho por ele, decide isso, e começa por quebrar a vidraça. Depois a manada acaba com tudo, incendeia, atrapalha os bombeiros, uma confusão só. E é pra enxergarmos isso como the proper thing to do que Spike Lee fez o filme, até porque a quebra do rádio se encaixaria no título “Don’t do the right thing, they’ll kill ya for doin’ that”. A coisa certa é a violência sem sentido. Foi pra apoiarmos essa violência que o filme foi feito. A manada tenta destruir os coreanos bondosos também, mas alguém intervém e impede – inclusive porque os coreanos diziam ser niggas como os niggas themselves, e céus, como estavam longe disso!
A conclusão desta resenha, que vem anunciada como em uma redação de estudante secundarista, não poderia ser diferente, e imagino que todas as resenhas sobre esse filme terminem assim. No meu mundo ideal elas terminam todas assim, pelo menos, porque qualquer outra conclusão é inválida: Spike Lee parece odiar mais os negros do que seus personagens racistas, e parece confundir valores éticos com sentimentos de classe, e parece não saber construir um roteiro de qualidade, e parece ser incapaz de falar de racismo de um ângulo realmente importante, parece desejar, mais que acabar com qualquer hegemonia, construir uma hegemonia negra, a vingança do black people ao invés da igualdade racial. E isso é triste. Mais triste que a morte de Radio, porque, mais que uma pessoa, é a morte de um caráter.

"NARRANDO (PR)O MUNDO" por Rafaela Vasconcelos


É com letras garrafais, numa extensa faixa carregada por várias mulheres, que a epígrafe deste ensaio surge em primeiro plano numa fotografia divulgada no site da ONG SOS Corpo[1]. Com poucas palavras, ela já revela – ou ao menos sugere – elementos centrais da proposta desse trabalho de tentar captar representações que o SOS Corpo produz da mulher, na sua página de Internet, e confrontá-las com a imagem construída pela mídia hegemônica.
A idéia de tomar o material da instituição como ‘auto-representação’, deve-se ao fato de ela ser auto-intitulada feminista. Já a escolha do meio eletrônico surge mesmo de forma estratégica, na medida em que, além de ser pertinente, viável, permite um rico panorama das ações, temas, estratégias e, subliminarmente, dos valores, princípios e signos da organização.

Do sujeito dessa história

Se, em meados do século XX, o Partido Comunista organizava e estimulava a ligação com as massas, acreditando que problemas de gênero e raça acabariam junto com o de classe, na década de 70, uma nova concepção de movimentos sociais superou a questão partidária e denunciou a existência de formas de opressão não limitadas ao econômico. Os movimentos de mulheres, de homossexuais, de negros, de ecologistas, aqui, passam a entender que suas causas são aspectos específicos e buscam autonomia. Eles têm formas próprias de organização, mas não são isolados; há conexões significativas. (ALVES & PITANGUY: 1991).
No Brasil, o contexto de abertura política nos anos 80 deu margem e visibilidade para novos sujeitos políticos que lutavam pela democracia. Mais que isso: os novos movimentos sociais “ganhavam significado na história recente” [2]. É nesse cenário que o SOS Corpo é fundado, em 1981, por um grupo de mulheres em Pernambuco.
Interessante notar como a própria questão do nome é pensada como signo da ação da instituição. Se no começo, o subtítulo “Grupo de Saúde da Mulher” remetia a uma atuação mais específica/ restrita, a mudança, em 1991, para “Gênero e Cidadania”, de fato, traduz uma postura mais ampla e articulada. Mas, sem dúvida, o atual “Instituto Feminista para a democracia” objetiva melhor sua atuação, enquanto “organização da sociedade civil”.
Nesse sentido, percebe-se a importância da legitimação da identidade institucional, não só para as integrantes em si, mas para a própria prática delas, na medida em que concebem a organização como fundação de “um projeto feminista de cidadania”. Como explica uma das coordenadoras do SOS Corpo, Taciana Gouveia, “ao se colocar como sujeito político, o movimento feminista transmite, cria e ressignifica valores sociais para além das mulheres, provocando mudanças no conjunto das relações sociais” (GOUVEIA: 2001; 255).
E, ao se definirem, logo na página inicial do site, como “uma entidade autônoma que orienta sua prática pelos ideais de liberdade, igualdade e solidariedade”, integrante de “movimentos nacionais e internacionais pela eliminação de todas as formas de injustiça, discriminação e exclusão social que historicamente têm marcado a vida das mulheres”, as militantes do SOS Corpo transitam entre o local e o global. Mas, antes de tudo, surgem como sujeitos/ protagonistas de sua história, movidas por um sentimento de transformação, por valores que se chocam com a ordem sócio-econômica vigente. A própria noção de autonomia, aqui, pode ser entendida como “a instauração de uma outra relação entre o discurso do outro e o discurso do sujeito” (IDEM: 2001; 255), ou melhor,

[...] a autonomia é a criação de dois novos lugares, no sentido de que aquele/a que só escutava passa também a ter o direito de falar, enquanto aquele/a que só falava passa a ter o dever de também escutar. É, enfim, a instauração de uma situação dialógica, ao invés de monólogos ou solilóquios. (GOUVEIA: 2001; 265).

É esta idéia que parece estar representada na imagem da frase da faixa comentada inicialmente. O “nosso olhar”, mais do que um ponto de vista coletivo, implica em perspectivas, experiências, valores diferentes do “olhar” que não é o ‘nosso’, o hegemônico. Mais que isso. Revela que não é passivo, na medida em que “transforma o mundo”; mostra, além da capacidade/ potencialidade de mudar, a ação em si, permanente, como mostra o verbo no presente. E isso fica mais simbólico, quando se leva em consideração que essa foto está na seção “Histórico”.
Assim, o conceito de minoria de Muniz Sodré parece pertinente. De que se trata de

um lugar onde se animam os fluxos de transformação de uma identidade ou de uma relação de poder. Implica uma tomada de posição grupal no interior de uma dinâmica conflitual. (SODRÉ: 2005; 12)
[...] uma recusa de consentimento, é uma voz de dissenso em busca de uma abertura contra-hegemônica no círculo fechado das determinações societárias. (IDEM:2005; 14).


Do discurso e da prática

Tendo cidadania e gênero como temas centrais, a ação do SOS Corpo surge estruturada em quatro programas, que dão significado político aos seus projetos e atividades:
Feminismo e Democracia (tentativa de qualificar a atuação pública das mulheres na construção da democracia brasileira); Justiça Social e Desenvolvimento (agenciamento da igualdade de gênero como elemento orientador das políticas, projetos e programas de desenvolvimento); Cotidiano e Cidadania (idéia de integrar os direitos reprodutivos e sexuais como parte da construção, defesa e usufruto da cidadania, garantindo o acesso da população a esses direitos no cotidiano) e Fortalecimento Institucional (aprimoramento da gestão e articulações institucionais e políticas).
Apesar de cada linha de trabalho ter grupos, projetos específicos, percebe-se que as estratégias de atuação adotadas são bem próximas. Em maior ou menor grau, o fato é que se as mulheres do SOS Corpo investem na formação de lideranças para atuação na esfera pública, em oficinas, debates sócio-políticos, na criação de redes e fóruns locais, nacionais e internacionais, assim como na produção e difusão de conhecimento. Muitas vezes, o campo de atuação são movimentos populares, sociais, sindicatos, partidos progressistas e grupos comunitários. Até porque, como afirmam no site, priorizam o “trabalho com mulheres, jovens e adultas, em especial aquelas que vivem em situação de pobreza e em situações de exclusão quanto ao acesso a bens, serviços e direitos sociais, políticos e culturais”. E deixam claro que “homens jovens e adultos formam um segmento minoritário”.
Mas, sem maiores considerações nesse último ponto específico, o que vale destacar, aqui, é que, mesmo se identificando com a luta das mulheres, a instituição reconhece a condição de sujeito coletivo desse grupo, sua pluralidade, suas várias identidades e histórias: negras, lésbicas, indígenas, campesinas etc. Seja qual for a particularidade, o importante é que elas surgem representadas como atuantes, articuladas, protagonistas.
Nas fotos divulgadas ao longo de todo site, as mulheres aparecem agindo, reivindicando, trabalhando juntas, em grupo, nunca sozinhas. As imagens são amplas, quase sempre em ruas e ambientes externos. Closes são praticamente inexistentes: parece que a intenção não é ver rostos específicos, indivíduos, mas, antes, um grupo forte agindo, protestando e/ou discutindo, com faixas, cartazes, passeatas, círculos e rodas de debate. A sensação é de que elas estão sempre se deslocando, mas com um rumo traçado. Na busca, justamente, de novos lugares, para novos – ou seria melhor dizer outros? – modos de ser.
Se por um lado, as fotos são uma espécie de ‘voz’ dessas mulheres – na medida em que dão visibilidade para algumas de suas ações e posturas – , por outro, podem ser vistas como eficazes artifícios de representação do outro, no qual o eu da instituição se coloca. Afinal, não são aquelas dezenas de militantes das fotos que escolhem o que e como vai ser publicado. Elas compõem e dão vida aos quadros, mas velam uma intenção. Como afirma Serge Moscovici:

Representar uma coisa [...] não é com efeito simplesmente duplicá-la, repeti-la ou reproduzi-la; é reconstituí-la, retocá-la, modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de ‘realismo’. [...] Essas constelações intelectuais uma vez fixadas nos fazem esquecer que são obra nossa, que tiveram um começo e que terão um fim, que sua existência no exterior leva a marca de uma passagem pelo psiquismo individual e social. (MOSCOVICI apud SÁ: 1995: 33-4).

E, se “o propósito de todas as representações é o de transformar algo não familiar, ou a própria não familiaridade, em familiar” (MOSCOVIVI apud SÁ: 1995; 35), então o SOS Corpo surge como sujeito social que participa e trabalha nesse processo de agendamento e legitimação de valores e paradigmas; dá visibilidade ao movimento feminista e o coloca como objeto de políticas públicas, ao estabelecer formas de interlocução entre o Estado e a sociedade civil organizada. Além disso, ao propagar imagens femininas distintas das tradicionais “rainha do lar”, “mãe”, “esposa”, “frágil” da mídia majoritária ou de objeto sexual recorrente na publicidade, a entidade vai ao encontro das narrativas hegemônicas.
E é justamente nessa disputa de vozes, nos espaços cotidianos de produção e reprodução de sentidos (CAMURÇA: 2001) que se dá uma negociação do poder.

Sendo relação, atividade de representação implica disputa de significado sobre a diferença em elaboração, e, portanto, a atividade de representação não inclui a dimensão de poder. Ao contrário, a inclui como relação em suas múltiplas possibilidades, dominação, subordinação, resistência, conflito. Ao abrir a possibilidade de conhecimento, a representação contribui para elaboração de discursos sobre as diferenças e para a constituição de campos de força discursivos, através dos quais, como sustenta Foucault, constitui-se o próprio poder. [...] Gênero é uma das formas de significar o poder em um jogo permanente de representações. (CAMURÇA: 2001; 158)

Do mundo virtual real

Para além da vulnerabilidade jurídico-social ou da constante reflexão e construção de sua identidade, é impressionante como a luta contra-hegemônica e as estratégias discursivas do SOS Corpo expressam bem a caracterização de minoria de Muniz Sodré (SODRÉ: 2005). São oficinas, palestras, encontros, cursos, campanhas; manifestações, passeatas; atos públicos, abaixo-assinados; consultorias, fortalecimento de grupos/entidades. Tudo respaldado – ao menos teoricamente – na idéia de o elo entre sujeitos acontecer através da comunicação. Nesse sentido, a página eletrônica da instituição tem um papel estratégico.
Além de espaço de divulgação de conteúdo e de diálogo/debate, o site surge como uma espécie de plataforma para reivindicações e auto-afirmação das mulheres, enquanto sujeitos políticos, sociais e históricos. Funciona como meio, espaço, lugar, voz, estratégia discursiva, ação. Na medida em que gerenciam e determinam o uso que se faz dele, as militantes do SOS Corpo se apropriam de espaços/mídias digitais, tomando-os como seu de fato. Trata-se mesmo de ver a história, a partir do lugar da voz do outro.
E, se “ocupar espaços é desmarginalizar” [3], então, essas mulheres acabam assumindo uma postura soberana, legítima de falarem por si mesmas; de deixar de ser o outro, para ser nós.. No site, elas são empoderadas o suficiente para repudiar ou respaldar explicitamente qualquer ação, seja na terceira pessoa do plural, seja usando o nome da organização.
Nesse espaço, são elas que definem o que é notícia; pautam, agendam temas. Se na grande mídia, por exemplo, a violência de gênero costuma ser publicada nas páginas policiais, aqui, predominam outras abordagens: pode se tratar de uma questão de saúde, de políticas públicas, de direito. Até porque, como se percebe na seção “Notícias”, são recorrentes chamadas de conferências, encontros, audiências públicas, simpósios, debates, oficinas, que lidam com temáticas sociais, de educação, cultura, políticas públicas, formação e construção de identidades, feminismo. Tudo apontando para rumos de transformação social; uma outra forma de contar a história.
Nesse sentido, a página eletrônica do SOS Corpo representa uma “Desterritorialização”, na medida em que, como afirma André Lemos, é uma “ressignificação, com linhas de fuga de fronteiras simbólicas, subjetivas, políticas, econômicas, culturais” [4]. E o interessante é que, mais do que simplesmente se fazer ouvir, ela permite estabelecer formas de diálogo, comunicação.
Nela, tem-se acesso irrestrito às informações das seções de Temas e ações; Histórico; Programas e projetos; Centro de documentação; Fundo de Ação comunitária; Catálogo; Notícias; Eventos e campanhas; Estrutura; Redes e articulações; Fontes de Recursos. São disponibilizados textos, pesquisas, publicações, relatórios, documentos e até arquivos de áudios das conferências e downloads de programas. Além disso, são oferecidos mais de 200 links, entre sites feministas/organizações de mulheres; da sociedade civil organizada; de ensino e pesquisa; de bases de dados; de publicações, rádios e afins; do governo; da ONU e de Agências de Cooperação.
Aqui, a democratização da informação surge mesmo como uma arma na defesa da comunicação como um direito humano. Afinal, partindo-se da premissa que a mensagem é uma construção humana, historicamente condicionada, é importante notá-la em duas perspectivas: produto e produtora de cultura. Ao mesmo tempo em que é pautada por ideologias, subjetividades, vivências, interesses, ela também surge como uma significação dada, muitas vezes, como verdade/ fato, suscitando, por sua vez, valores, crenças, ideais.
Inclusive, uma das propostas da Plataforma Política Feminista, aprovada em 2002, é

convocar os meios de comunicação de massa pra assumir sua responsabilidade social na transformação do imaginário coletivo no que se refere a seus traços machistas, sexistas, racistas e homofóbicos, implementando programas de informação e comunicação de amplo alcance social. (PLATAFORMA POLÍTICA FEMINISTA: 2005; 58).

Desde os anos 70, o movimento feminista se empenha nessa luta. Iniciativas como Brasil Mulher (1975-1980), Nós Mulheres (1976-1978) e Mulherio (1981-1988) – primeiros jornais feministas com circulação nacional – o programa de rádio “Viva Maria” de 1979 já tentavam representar a mulher numa outra perspectiva. Mas, o potencial no caso da página eletrônica do SOS Corpo está justamente na chance de utilizar as vantagens e recursos da internet para pautar e dar visibilidade a temas e questões historicamente oprimidos; para estabelecer um espaço de reflexão e diálogo.
Não que isso seja uma singularidade ou privilégio da instituição. Ao contrário. Na Internet, por não haver uma concentração de vozes, a tecnologia aparece como arma legítima contra eventuais controles estatais, empresariais, ou mesmo a desinformação. A relação comunicação e poder, de fato, é alterada. No contexto atual das infomídias interativas, onde os meios on-line configuram um novo paradigma, a comunicação é concebida de forma multidirecional. Num ambiente virtual, os indivíduos podem ser, ao mesmo tempo, consumidores e produtores de conteúdos. E aí, mais do que um confronto entre imagens, símbolos ou representações, acontece um choque de valores e princípios.
Na desnaturalização de práticas cotidianas e na possibilidade de novas abordagens, os diferentes sujeitos impulsionam a dinâmica da vida social. E, como afirma Stuart Hall,

Nesse momento “pós-colonial”, os movimentos transversais, transnacionais e transculturais, inscritos desde sempre na história da “colonização”, mas cuidadosamente obliterados por formas binárias de narrativização, têm surgido de distintas formas para perturbar as relações estabelecidas de dominação e resistência inscritas em outras narrativas e formas de vida. Eles reposicionam e des-locam a “diferença” sem que, no sentido hegeliano, se atinja sua “superação”. (HALL: 2003; 114)

No caso específico das mulheres do SOS Corpo, há uma luta de reconhecimento numa nova esfera pública. Trata-se de indivíduos com uma nova sensibilidade do mundo, um novo estilo de vida, com novas categorias de ser. E, na medida em que articulam seu discurso a questões globais, não surgem como um movimento de gueto. Legitimam-se, antes, como exemplo de uma pós-modernidade crítica. etratam a caracterizaçS Corpo que mais
REFERÊNCIAS

ALVES, Branca Moreira. PITANGUY, Jaqueline. O que é feminismo? São Paulo: Brasiliense, 1991. 80p.

CAMURÇA, Silvia. A política como questão: revisando Joan Scott e articulando alguns conceitos. In: ÁVILA, Maria Betânia et al. Textos e imagens do feminismo: mulheres construindo a igualdade. Recife: SOS Corpo, 2001. p. 131-190.

GOUVEIA, Taciana. Antinomias e contradições: a dinâmica da institucionalidade. In: ÁVILA, Maria Betânia et al. Textos e imagens do feminismo: mulheres construindo a igualdade. Recife: SOS Corpo, 2001. p.239 - 286.

HALL, Stuart. Quando foi o pós-colonial? Pensando no limite. In: __________ Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003. p. 101-128.

PLATAFORMA POLÍTICA FEMINISTA. Brasília: CFÊMEA, 2002.

SÁ, Celso Pereira de. Representações sociais: o conceito e o estado atual da teoria. In: SPINK, Mary Jane (org.). O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 1995. p.19 – 45.

SODRÉ, Muniz. Por um conceito de minoria. In: PAIVA, Raquel. BARBALHO, Alexandre (orgs.). Comunicação e cultura das minorias. São Paulo: Paulus, 2005. p.11 – 14.




[1] Ver a seção Histórico de http://www.soscorpo.org.br/



[2] Extraído da seção Histórico de http://www.soscorpo.org.br/



[3] Extraído do mini-curso "Mídia Locativa, Cidades e Territórios Informacionais", ministrado pelo Prof. André Lemos no campus da UFPE, nos dias 2 e 3 de julho de 2007.

[4] Idem.

"A mídia e a cobertura das religiões evangélicas" por Rafael Dantas e Carlos Henrique


“Evangélico é preso ao tentar extorquir pastor da própria igreja”, “Pastores são acusados de manter escravos em fazendas em Minas”, “58% da propina foi para evangélicos, diz CPI”, “BANCADA EVANGÉLICA: Ex-líder é acusado de chefiar fraude”. A cada dia esse tipo de manchete tem se tornado corriqueira, apesar de não haver um grande número de matérias sobre as religiões evangélicas ou sobre seus membros, na maioria dos casos a abordagem é sempre negativa. Seja quando vitimas ou como agressores a imagem dos evangélicos é normalmente apresentada como alguém de moralidade dúbia: “A volta do pecador: Um ano após Dossiê Cayman, pastor Caio Fábio acha que é hora de sair do fundo do poço”.[1] A imprensa também não dá crédito a famosos que se dizem convertidos, e os novos evangélicos também são tratados de modo pejorativo, como na manchete sobre Jece Valadão, da Revista Veja: “O cafajeste de joelhos: Jece Valadão segura na mão de Deus e vai”[2].
Para que se torne mais exata essa análise, poderíamos observar o caso da cobertura da Folha de S. Paulo do episódio dos Sanguessugas, desvio de dinheiro público no Ministério da Saúde. Do dia 17 de Maio ao dia 25 de Agosto, período mais intenso dessa crise, apenas uma nota apresentava o lado da bancada evangélica, que alegava falta de provas, enquanto todas as notícias veiculadas nesse período já condenavam os membros dessa bancada antes de ter qualquer informação comprovada.
Já no caso da prisão dos líderes da Igreja Renascer, acusados de estelionato, sonegação de imposto e altas dívidas, a abordagem da mídia, de um modo geral, também foi enfática no sentido de, exaustivamente, mostrar o patrimônio da família e as principais acusações contra o casal. As matérias divulgadas pela Folha de São Paulo, no espaço de 9 de janeiro a 17 de março de 2007, e as da revista Veja, incluíam criticas com relação às doutrinas pregadas pela igreja, a forma do culto e até ofensas pessoais contra a bispa Sonia, muitas delas dirigidas em tom humorístico.
A maciça utilização do termo “bancada evangélica” pela grande mídia, a forma agressiva e sarcástica como foram tratados os líderes da Igreja Renascer em Cristo e outros casos famosos como o dos Sanguessugas e das denúncias contra a Igreja Universal do Reino de Deus fazem parte de um enorme acervo de matérias com uma abordagem diferenciada do que é dado a outras religiões.
1º caso analisado: Envolvimento de evangélicos no escândalo dos Sanguessugas:
Generalização no termo “Bancada Evangélica”
Um dos aspectos mais claros que podemos perceber nesse primeiro caso é a generalização indevida, ao se tratar dos evangélicos, como se fossem um único ramo do cristianismo, ou ao julgar os evangélicos por atos indevidos de indivíduos. A própria utilização do termo “bancada evangélica” explica essa generalização. Ficou claro que a mídia retratou os evangélicos como uma bancada uniforme, pertencente a um partido ou a convicções ideológicas semelhantes, e não como uma multiplicidade de parlamentares que tem em comum o segmento religioso e que unem-se, eventualmente, em casos de votações de emendas relacionadas a questões éticas ou religiosas.
Observa-se, por exemplo, uma distinção de abordagem entre a Folha de S. Paulo e o site oficial da Câmara Federal (www.camara.org.br). A veiculação das notícias sobre a bancada evangélica trata exatamente sobre temas que interessam ou ferem a ideologia defendida por eles, como o aborto e a autorização das missões entre os índios. Além disso, enquanto que a mídia comercial deu uma ênfase aos evangélicos no caso dos sanguessugas, a agência de notícia da câmara ao divulgar os envolvidos apresenta uma grande presença das bancadas liberal e petebista, “detalhe” desconsiderado pelo jornal e pela mídia, de uma forma geral.
Luther King de Andrade Santana[3], em sua dissertação de mestrado, aborda essa questão da generalização do movimento evangélico pela mídia. Para ele, o campo religioso brasileiro, incluindo-se o evangélico, é bastante difuso e múltiplo, afirmando que “o campo religioso evangélico é um caleidoscópio, em que igrejas são formadas, se dividem e se unem a outras construindo assim um tipo especial de protestantismo. Sendo assim, causa estranheza quando a mídia se refere aos evangélicos como se estes tivessem uma união programática e ideológica muito bem definida e articulada”.
Para que se tenha uma idéia da multiplicidade que é o movimento evangélico no Brasil, é preciso que se faça um retrospecto histórico. A presença dos protestantes no Brasil tornou-se mais marcante a partir de 1810, com a abertura dos portos brasileiros as nações amigas, em um tratado realizado com a Inglaterra. Em 1811, comerciantes ingleses estabeleceram a Igreja Anglicana, seguindo-se a instalação de outras igrejas consideradas históricas, como a Batista e a Metodista. Em 1910, formaram-se as chamadas igrejas pentecostais, tendo como principal representante a Assembléia de Deus. Só a partir das décadas de 70 e de 80 é que surgiram as igrejas “neopentecostais”, a exemplo da Igreja Renascer e da Igreja Universal do Reino de Deus, que tem como marca principal o uso da mídia.
A presença de evangélicos na vida política começou a se destacar a partir da Constituinte de 1988, com um crescente numero de parlamentares eleitos. Esse crescimento pode ser considerado como conseqüência do próprio crescimento de evangélicos no país.
O recente e rápido crescimento de uma nova esfera social, de uma nova “tribo”, pode ter ocasionado um choque com a realidade social já existente. E a mídia, por estar inserida nesse contexto social, tende a acompanhar essa resistência da sociedade a um novo grupo.
2º caso analisado: Prisão dos líderes da Igreja Renascer:
Críticas a doutrina da igreja e ofensas pessoais
Nesse caso, notou-se um tratamento muito mais discriminativo por parte da mídia com relação aos evangélicos do que na máfia dos Sanguessugas. As críticas as atitudes dos líderes da Renascer foram acompanhadas de matérias “explicativas” sobre as origens e as doutrinas da igreja, geralmente com um tom preconceituoso. Até a forma do culto foi criticada, um elemento que nada tinha a ver com os crimes de que o casal estava sendo acusado.
“A música –gospel- é a chave por trás de tudo, o elemento catalisador de emoções nos rituais da Renascer. As letras e as melodias -quase todas em tons maiores e com variações sempre melodiosas- visam tocar a sensibilidade do fiel, que geralmente já está extasiado (ou anestesiado) antecipadamente pelos sermões extremamente emotivos (e otimistas) do casal Hernandes. O casal, aliás, pode ser criticado por qualquer coisa, mas sua retórica naquele ambiente é eficiente. Basta assistir a um culto dominical na sede mundial, na av. Lins de Vasconcelos. Ou assistir a uma gravação da série de CDs "Renascer Praise". São exemplos de catarse religiosa, fé legítima e, principalmente, generosidade dos fiéis em colaborar com a prosperidade de seus líderes.”[4]
Expôs-se até as formas de pagamento de ofertas na igreja: “A novidade é a forma de pagamento. Agora, além de dinheiro vivo e cheques, o templo aceita doações até por meio de cartões bancários. Durante o recolhimento das ofertas dos fiéis, um colaborador da Renascer, identificado com uma tarja de pano azul no braço esquerdo, percorre os corredores do templo com uma máquina portátil para cartão, como as usadas em restaurantes.”[5]
As matérias, em certos casos, tornam-se agressivas a ponto de grandes empresas de comunicação nacionais chegarem a divulgar informações falsas e acusações fortes em tom humorístico, como no caso da Revista Veja contra a Igreja Renascer em Cristo. Várias manchetes ou frases com duplas intenções como “A peleja da bispa e do apóstolo contra o diabo”[6], ou citações que ironizam claramente as características de certas personalidades como “Rica e lipoaspirada, bispa atrai fiéis com sermão que mistura Deus e cosméticos”[7].
Outras matérias anteriores sobre a igreja Renascer, mesmo antes das atuais denuncias, já mostram um tratamento preconceituoso. Uma delas, também da Veja, tem por título “Entre a cruz e a Cadeia”, de 06 de Dezembro de 2006. Nesse texto a Revista traz números supervalorizados da Igreja Renascer, chegando a citá-la como a segunda maior igreja evangélica do país (informação falsa). Ainda cita junto das acusações da justiça uma série de possibilidades e apostas de possíveis outros desvios da Igreja. A maneira como o texto é colocado confunde os leitores que consideram todas as informações como precisas e verdadeiras.
Possíveis motivos do tratamento diferenciado aos evangélicos
1. Resistência da sociedade e da mídia a novas “tribos” ou minorias
Para Jorge Pedro de Souza[8], existem fortes marcas de determinados grupos hegemônicos sobre as notícias, ou seja, os meios de comunicação podem cobrir interesses dos poderes de “classe” dominantes e contribuir para a manutenção do estado das coisas, mesmo que não satisfaçam os cidadãos. Uma das funções chave dos news media apontadas por esse autor é a “manutenção das fronteiras do legítimo e do aceitável numa sociedade”.
Há uma resistência natural às minorias justamente pelo fato que essas normalmente representam uma cultura e um padrão de consumo e valores diferentes, podendo alterar a posição de determinados grupos político-econômicos. Como uma das principais funções dos meios de comunicação de massa é a “manutenção do estado das coisas”, é natural uma aversão, ao menos inicial, a determinados grupos, principalmente os que carregam um poder ideológico mais forte.
O conceito de minoria pode se aplicar aos evangélicos mais de forma qualitativa do que quantitativa. Segundo o último censo das religiões brasileiras, realizado em 2007 pela Fundação Getúlio Vargas, os grupos denominados evangélicos representam cerca de 20% da população, o que é uma proporção considerável. Deve-se, então, considerar os evangélicos como uma minoria qualitativa, que luta por representação dentro das esferas do poder constituído, seja ele político, midiático, econômico, dentre outros.
Essa luta contra-hegemônica é uma das características que definem a minoria, destacadas por Muniz Sodré em Por um conceito de Minoria. Para Sodré, a luta contra os poderes tradicionais não é feita, necessariamente, através do uso de armas, mas se utilizam ”territórios de luta” alternativos, como a mídia.
As minorias também utilizam estratégias de discurso como recursos de luta. No caso dos evangélicos, passeatas como a Marcha para Jesus, revistas, programas de rádio e TV são instrumentos utilizados para a divulgação de crenças e diminuição do preconceito da sociedade.

Nessas estratégias discursivas, observa-se uma identidade própria dos evangélicos na divulgação de suas doutrinas. O uso de uma identidade social, que diferencie determinada minoria das outras, também é um recurso utilizado pelos evangélicos para se tornarem conhecidos dentro do todo social. Roupas, músicas, literatura e programas próprios nos meios de comunicação são exemplos da construção de uma identidade peculiar dos evangélicos. No caso dos programas de rádio e TV, os evangélicos, e, principalmente as igrejas de maior poder aquisitivo, ocupam espaços dentro da grande mídia, com o intuito de divulgar suas idéias.
Além das maneiras de como os evangélicos se manifestam nos espaços da mídia, há também o lado dos grandes meios de comunicação, e de como esses meios retratam o grupo minoritário. De acordo com Raquel Paiva, em Mídia e Política de Minorias, o papel da grande mídia no tratamento dado às minorias é, muitas vezes, de manutenção da ordem social vigente, hegemônica. A mídia é “capaz de, se não substituir, definir, de maneira cabal, todas as antigas mediações sociais” (Paiva, 2005)
Apesar de haver, segundo Raquel Paiva, um interesse da mídia por indivíduos consumidores, no caso do tratamento aos grupos evangélicos esse interesse não existe. Mesmo havendo um crescimento no número de adeptos das igrejas evangélicas, e existir um mercado específico de bens materiais e culturais para esse grupo religioso, o tratamento dado pela grande mídia tem sido, ainda, hegemônico e discriminatório.
No Brasil, é grande o número de instituições e ONG’s que se preocupam com o tratamento dado as minorias pela mídia. Um dos destaques foi o combate àquele tratamento pejorativo em relação aos homossexuais ou aos negros, apresentados, muitas vezes, com papéis humorísticos que diminuíam a sua imagem ou, no caso dos negros, como escravos ou empregados. Após esse combate houve uma alteração nessa realidade. Sobre as minorias religiosas, até que grupos afro-religiosos contam com uma simpatia dos meios que, não raramente, têm sua cultura divulgada em novelas, mini-séries e documentários.[9] Entretanto, os grupos evangélicos não têm o mesmo espaço de defesa e até os espaços na mídia pagos pelas igrejas para divulgar sua pregação não raro são tratados como uma invasão aos “meios públicos” por alguns estudiosos, que não vêem que esses grupos religiosos representam parte da sociedade brasileira e sendo a TV e o rádio, como “meios públicos”, deveriam dar voz as diversas representações da sociedade.
Uma clara declaração do repúdio da imprensa a entrada dessas religiões nesse espaço público é a de Alberto Dines: “A invasão das seitas religiosas na mídia eletrônica e a politização destas seitas agride algumas cláusulas fundamentais da nossa Carta Magna. Estamos longe das explosões de intolerância que ocorreram na Europa e no Oriente, mas, infelizmente, estamos longe também do clima de tolerância que deve imperar numa sociedade democrática.”[10]
Pode-se afirmar que a abordagem da mídia foi estereotipada, quando tratou desses casos que envolvem evangélicos. Estereótipo é um conjunto de características presumidamente partilhadas por todos os membros de uma categoria social. É um esquema simplista, mas mantido de maneira muito intensa, e que não se baseia necessariamente em muita experiência direta. Pode envolver praticamente qualquer aspecto distintivo de uma pessoa – idade, raça, sexo, profissão, local de residência ou grupo ao qual é associada. Portanto, quando um determinado personagem social é fortemente atingido pela mídia, todo o seu grupo poderá sofrer as conseqüências. A imagem do pastor associada à exploração de dinheiro dos fiéis é um exemplo disso. Quando casos desse acontecem e são minuciosamente explorados pelos meios de comunicação tem como resposta da sociedade um conceito negativo, que se torna um estereótipo.
Ao tratar sobre senso comum, Marilena Chauí[11] cita o fator generalizador como uma conseqüência da maneira como separa e junta coisas, fatos, pessoas, tende a reunir numa só idéia ou numa única opinião coisas, pessoas e fatos julgados semelhantes, sem indagar se a semelhança não seria aparente. Assim, diferencia sem indagar sobre a diferença e reúne sem indagar sobre a semelhança. Unindo-se ao estereotipo criado dos evangélicos com esse fator generalizador da sociedade, criam-se inúmeras idéias de senso comum, mas sem nenhuma comprovação científica. Qualquer evangélico eleito para um cargo representativo, seja do legislativo ou do executivo, é caracterizado como alguém que chegou ao seu posto com os votos da igreja, independentemente do seu legado político e de suas ações fora da igreja. Isso é um estereótipo que foi formado devido ao intenso combate de alguns meios de comunicação a esse tipo de situação, logo o senso comum passa a tratar de maneira generalizada.
2. Ausência de um comportamento esperado
A principal marca do movimento evangélico, derivada da Reforma Protestante, é a elevação da Bíblia ao status de única regra de fé e pratica, diferindo-se do catolicismo, que, além da Bíblia, se apóia em tradições posteriores às doutrinas dos apóstolos. Santana destaca que, por causa disso, “a centralidade da Palavra sempre foi fundamental para esse tipo de culto onde todas as atitudes e decisões deviam fazer referência ao texto bíblico”.[12]
E esse discurso ético, típico do movimento evangélico em geral, pode ser um fator de cobrança da mídia, no caso de evangélicos que não cumprem na prática o que pregam. O discurso firme e rigoroso contra a desonestidade, anunciando valores cristãos com veemência, e muitas vezes agindo como juízes de atitudes e movimentos sociais, torna as igrejas evangélicas naturalmente passiveis de serem cobradas em atitudes que sejam incompatíveis a sua “doutrina”.

Conclusão
Diante do que foi apurado, é possível concluir que a abordagem da mídia foi preconceituosa no tratamento aos evangélicos, não somente nos casos em que eles eram acusados de crimes ou envolvidos em corrupção. Até na maneira de mostrar o surgimento de novas igrejas e das suas convicções doutrinarias, observou-se um tratamento sempre estereotipado.
Acreditamos que essa abordagem preconceituosa é baseada na própria resistência social a novas “tribos” que vão surgindo. Também há uma cobrança por parte da sociedade quando grupos sociais entram em contradição com o que dizem na teoria, principalmente no caso dos movimentos evangélicos, que sempre tiveram uma doutrina firmada na ética da Bíblia, no repúdio a tudo quanto é ligado a corrupção e ao “pecado”, aos maus costumes.
O grande problema da mídia foi a parcialidade no tratamento dado aos fatos. Muitas vezes, não houve a preocupação em se apresentarem dados de acordo com a realidade, e a objetividade dos fatos deu lugar ao sensacionalismo e a critica de baixo nível, com utilização de ofensas pessoais e ignorância quanto ao movimento evangélico, muitas vezes considerado como um grupo uniforme, sem uma abordagem de profundidade historica da atuação desse segmento que contribuiu e contribui fortemente para a construção da historia do Brasil.
Bibliografia

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PAIVA, Raquel. Comunicação e Cultura das Minorias. Por Um conceito de Minoria. Editora Paulus. Rio de Janeiro, 2005.
[1]Capa da Revista Veja, 17 nov. 1999.
[2]Capa da Revista Veja, 19 ago. 1998.
[3] Santana, Luther King de Andrade. Religião e Mercado: A mídia empresarial religiosa. Dissertação de Mestrado. PUC-SP. Revista de Estudos da Religião. http://www.pucsp.br/rever
[4] FELTRIN, Ricardo. Teoria da Prosperidade, expansionismo e música são as “bases” da Renascer. Folha On-line, 9 jan. 2007.
[5] BIGATTO, Carla Monique. Em culto cheio, doações vêm em cheque e cartão. Folha de São Paulo, 12 jan. 2007. Brasil.
[6] ABRAMO, Bia. A peleja da bispa e do apostolo contra o diabo. Folha de S. Paulo, 21 jan. 2007.
[7] Capa da revista Veja, 21 fev. 2001
[8] SOUSA, Jorge Pedro. Teorias da Notícia e do Jornalismo. Chapecó: Argos, 2002.
[9] SOARES, Raquel Paiva de Araújo. Política de Minoria e Religião, UFRJ.
[10] DINES, Alberto. www.observatoriodaimprensa.com.br
[11] CHAUÍ, Marilena. ww.dhnet.org.br/direitos/sos/discrim/preconceito/sensocomum.html. Acesso em 10/01/07.

[12]SANTANA. Op. Cit.

"Amores expressos" por Andréa Aquino


Hong Kong, cidade-cenário do filme Amores expressos, possui uma história marcada por migrações. Colônia britânica até 1997, hoje sob domínio da China, a ilha é uma potência econômica e financeira que atrai, principalmente, imigrantes chineses. Se nos primeiros anos do século XX, a imigração tinha motivações políticas (Hong Kong era refúgio de opositores da República da China), com o desenvolvimento econômico, a região passou a atrair mão-de-obra barata para a indústria e investimentos estrangeiros. Além disso, durante a II Guerra mundial, a ilha passou quase quatro anos ocupada pelo Japão. Todo esse histórico de uma “relação mais ou menos contínua com a ‘diferença’”[1] possibilitou que Hong Kong se tornasse uma metrópole multicultural.

As sociedades multiculturais não são algo novo... a migração e os deslocamentos dos povos têm constituído mais a regra que a exceção, produzindo sociedades étnicas ou culturalmente “mistas”. [2]


Hall (2003) define, um pouco redundantemente, a característica comum a todas as sociedades multiculturais: são culturalmente heterogêneas. Multicultural, ainda segundo Hall, distingue-se de multiculturalismo. Esse último

Refere-se às estratégias e políticas adotadas para governar ou administrar problemas de diversidade e multiplicidade. [3]


Em Amores expressos, o multiculturalismo pouco aparece como estratégia de uma coletividade, de comunidades[4] etnicamente diversas convivendo na mesma cidade[5]. Na narrativa, predominam as negociações em ação, escolhas práticas no cotidiano dos indivíduos. E o hibridismo[6] parece ser a principal estratégia de relacionamento com a diferença usada pelos personagens.

O multicultural em Amores expressos é mostrado como constitutivo dos sujeitos, parte banal do dia-a-dia. Música americana, reggae no bar San Miguel Beer, perucas loiras que lembram divas como Greta Garbo, cerveja Sol, Coca-cola: é, principalmente, nos gostos e consumos que transparece as influências múltiplas que sofrem cada personagem. Essa característica permite-nos relacionar, como faz Hall, a questão multicultural e a globalização.

No filme, são muitas as referências a produtos ocidentais/globais. Mas em Amores expressos elas aparecem banalmente, como parte da vida das pessoas, sem que se dê, realmente, muita atenção a elas. Parece que a intenção seria mostrá-las como algo comum e constitutivo da identidade de Hong Kong. Produtos ditos “ocidentais”, como California dramin’ (repetido à exaustão) ou o mais simples Happy birthday, podem ser tão orientais quanto o hashi e os olhos puxados. Eles fazem parte de Hong Kong e da vida de seus habitantes.

Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas que estão suspensas, em transição [grifo do autor], entre diferentes posições; que retiram seus recursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições culturais; e que são o produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo globalizado. [7]

Os críticos cosmopolitas estão corretos aos nos lembrarem que, na modernidade tardia, tendemos a extrair os traços fragmentários e os repertórios despedaçados de várias linguagens culturais e éticas.[8]

Mesmo que na globalização contemporânea a tendência cultural dominante seja a homogeneização ocidentalizante (Hall, 2003), comunidades cosmopolitas são marcadas por processos de transculturação (Pratt apud Hall, 2003), por estratégias de différance.

Essas estratégias surgem nos vazios e aporias, que constituem sítios potenciais de resistência, intervenção e tradução... Culturalmente, elas não podem conter a maré da tecno-modernidade ocidentalizante. Entretanto... elas constituem o fundamento para um novo tipo de “localismo” que não é auto-suficiente particular, mas que surge dentro do global, sem ser simplesmente um simulacro deste.[9]

Uma reflexão que pode ser feita em segundo plano é a quase total não-identificação em relação a questões de classe. Os dois policiais surgem na história não enquanto “profissionais”, mas como homens que perderam seus amores. Como já indicava Hall (1997),

As pessoas não identificam mais seus interesses sociais exclusivamente em termos de classe; a classe não pode servir como um dispositivo discursivo ou uma categoria mobilizadora através da qual todos os variados interesses e todas as variadas identidades das pessoas possam ser reconciliadas e representadas.[10]

As identificações entre as duas histórias são tênues. Os pontos de intersecção mais evidentes entre as duas tramas, além da questão amorosa, são ambientes que indicam passagem: o aeroporto e uma lanchonete de fast-food. Analisando mais atentamente esses detalhes, em conjunto com as falas dos personagens, podemos usá-los como metáforas da fugacidade não apenas dos relacionamentos (expressos!), mas também da própria fluidez das identificações:

Elas [as pessoas] mudam. Elas podem gostar de abacaxi hoje e de outra coisa amanhã. [traficante chinesa, que usa peruca loira][11]

De algum jeito, em algum lugar, em algum momento, tudo “passa do prazo de validade”. Senhas... Molho de carne... Até os filmes de Cling... Existe algo na terra que não passe do prazo de validade? [He Qiwi, o policial 233]



































BIBLIOGRAFIA

CARREIRO, Rodrigo. Amores expressos. Disponível em: . Acesso em: 05 jun 2007.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A Ed., 1997.

HALL, Stuart. A questão multicultural. In: Da diáspora. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003. p. 51-100.

HONG Kong. Disponível em: . Acesso em: 05 jun 2007.

ROSAS, João Cardoso. Sociedade Multicultural: conceitos e modelos (versão preliminar). Disponível em: . Acesso em 10 jun 2007.




[1] HALL, 2003, p. 63. Frase usada para caracterizar a Grã-bretanha.
[2] Ibidem, p.55.
[3] Ibidem, p.52
[4] Deve-se usar com cuidado esse termo. Como alerta Hall (2003), ele pode dar duas falsas impressões: a de que os grupos são homogêneos e que possuem fronteiras culturais fechadas e bem definidas.
[5] A exceção é a pequena presença dos indianos traficantes de drogas. Ainda que com um participação muito pequena na trama, os indianos aparecem num posição de vulnerabilidade, buscando renda através de atividades ilegais. Esse detalhe pode servir d reflexão sobre a delicada situação sócio-econômica dos imigrantes. Em nosso trabalho, porém, não nos deteremos nesse ponto.
[6] Para Hall (2003), o hibridismo é um processo de tradução cultural que nunca se completa, um “outro termo para a lógica da tradução [grifado no original] ” (p.74)
[7] HALL, 1997, p.95
[8] HAL, 2003, p.83-84
[9] Ibidem, p.61
[10] HALL, 1997, p.22
[11] Sintomaticamente, enquanto pensa isso, a personagem é mostrada múltiplas vezes, como quando se fosse vista através de um espelho partido em várias partes.

"O Álbum Negro" por Izabel Fontes


“E, se todos aderiam ferozmente a um grupo, a questão mais premente era saber qual seria o seu grupo.” Se uma única frase tivesse que ser escolhida para dar o espírito do Álbum Negro, segundo romance do paquistanês Hanif Kureishi, com certeza essa seria a escolhida. Definitivamente, o livro é uma narração sobre as experimentações de um jovem em busca de suas identidades – sexual, religiosa, cultural, política, nacional.
Com linguagem leve, narração envolvente e várias doses do humor ácido tipicamente britânico, Kureishi narra o processo adolescente e sempre doloroso de se colocar no mundo. A conquista da independência, a faculdade, as escolhas, as paixões e a criação de uma crença independente dos pais. Seria uma história comum, divertida, mas comum: já esteve em Caulfield, jovem que virou símbolo de uma geração a partir do livro de Salinger, nos adultos adolescentes e amantes da cultura pop de Nick Hornby, na geração transviada de Irvine Welsh.
O diferencial, no caso, é que, além de adolescente, o personagem principal, Shahid, é árabe na multicultural Inglaterra. Shahid lida com a adolescência enquanto se esquiva entre suas referências de música pop, a apimentada comida indiana, as drogas e o fundamentalismo religioso. O jovem descendente de paquistaneses se vê dividido entre o mundo de diversão que acabou de descobrir com sua professora e amante Deedee Osgood e entre o primeiro grupo onde consegue se sentir aceito, cujo mentor intelectual é o seu vizinho no prédio da faculdade, o fundamentalista Riaz.
Ao sair para estudar, ficando longe da casa dos pais pela primeira vez, Shahid sai em busca da liberdade que nunca teve. Liberdade é inseparável da autonomia e identidade, e é isso justamente isso o que mais preocupa o jovem. A sua família é ambígua e parece ter se inserido dentro da alta sociedade britânica, apropriando-se de costumes e pensamentos. Essa inserção só foi possível graças ao dinheiro, que parece ter comprado respeito, minimizando os preconceitos. A exemplificação perfeita dessa situação está na figura da mulher do seu irmão, que aparece elegantemente vestida com um tailleur Chanel e fala, do alto dos seus saltos Gucci, que a religião só serve para acalmar as massas e que Shahid devia se preocupar mais em manter a fortuna da família.
Entretanto, Shahid, por ainda estar na escola, onde o seu dinheiro não tem tanta influência, ainda sofre na pele a discriminação, por isso se sente à parte de sua família e, ao mesmo tempo, à parte da vida social que gostaria de pertencer. A sua reação acaba sendo autodestrutiva, gerando um preconceito às avessas, onde o objetivo é sentir menos discriminado através da discriminação. Ao perceber o caminho errado que tomou, Shahid entra em sofrimento, que tem apogeu com a morte de seu pai. É justamente esse sofrimento, tratado com vergonha, que o aproxima de Riaz. A compreensão que o mentor intelectual mostra em uma primeira conversa parecia antes impossível e Shahid acaba se sentindo aceito pela primeira vez na vida.
Por conta desse sentimento de aceitação, o jovem vai se envolvendo com as práticas fundamentalistas de Riaz de forma passiva e não-reflexiva. Shahid passa a participar das ações do grupo sem se dar conta exatamente do que está fazendo e acaba ficando sempre incomodado, escondendo realmente o que pensa. A falta de sentido das situações sérias é um dos pontos altos do livro. O que pensar, por exemplo, sobre as cenas em que é relatada uma adoração a uma berinjela? Uma mulher, ao cortar o vegetal para o almoço, descobre o caráter “sagrado” e a coloca para exposição, atraindo centenas de mulçumanos. O humor vai se diluindo até estar completamente dissolvido e se transformar em tensão, em conflitos políticos.
O sentimento de estranhamento, de não pertencimento, é uma constante na vida do personagem. Aonde quer que vá, ele nunca estará em casa. A sua terra natal, Inglaterra, não é sua. Ali será sempre um estrangeiro, denunciado pela cor da pele, pelo nome e por elementos ainda mais sutis. A terra natal de seus pais, o Paquistão, também nunca será sua. Ali também é um estrangeiro, que busca raízes em que nunca esteve preso.
A pós-modernidade e suas múltiplas identidades ou identidades fragmentadas parecem não existir para o jovem sem pátria. O principal erro de Shahid é pensar que pode ter os dois, que pode se dividir em dois e suprir todas as suas necessidades ao mesmo tempo, por mais contraditórias que elas sejam. No final, o adolescente tem que escolher, assumindo pela primeira vez uma postura verdadeiramente ativa, faz a sua escolha e parte para um novo começo.

"Amores Expressos e as relações de um mundo fast-food" por Júlia de Castro



Amores Expressos de Wong Kar-Wai é contemporâneo a tal ponto que, se não fosse pelo figurino, não se saberia tão fácil que se passa na década de noventa. Ouso dizer que se trata de um filme fast-food que a todo momento faz referência a esse tipo de cultura. É rápido, o tempo e o espaço das cenas correm. Seja essa corrida sob os efeitos de fotografia, seja pelo dinamismo do próprio enredo.
Artifícios de velocidade na câmera foram usados para cadenciar o ritmo frenético e a noção de rapidez e de consumo rápido que são reafirmadas durante toda a produção. Essa reafirmação também vem através o abuso das cores vermelho e azul nas cenas. Coincidência ou não, essas são as cores preferidas dos fast-foods justamente por suscitar, praticamente induzindo, a rapidez na rotatividade.
De fato, Califórnia Dreaming não é uma das músicas mais frenéticas do mundo, mas marcou uma época e se configura, pela própria letra - que fala do ideal e do sonho americano-, como um retrato de um modelo estadunidense. Tanto é que a personagem da segunda história nutre a vontade de ir para lá e escuta essa música incessantemente, como uma espécie de consolo por não viver no paraíso em dias ensolarados.
Além da música, é comum na película a presença de símbolos da globalização. Essas marcas já estão tão enraizadas no inconsciente coletivo. Não é de se estranhar que nos quatro cantos de Hong Kong apareçam as marca da Coca-cola e da Mc’Donalds, por exemplo. Isso é tão explicito no filme que, na lanchonete onde se passa a história, sempre está no plano o símbolo da Coca.
A primeira parte da película, praticamente um conto, é o dia-a-dia de uma traficante de drogas. Ela se mostra a caricatura de uma oriental que busca o modelo ocidental: usa até óculos escuros e peruca para parecer uma americana da década de 90. A relação com o ocidente é tanta, que ela chega se envolver com um loiro de olhos claros.
O conceito de uma raça fixa é completamente corrompido. A única certeza é a etnia dos que estão ali. Não se sabe onde começa o oriente e o ocidente num contexto de globalização. É fato, se puderem ser definidas as raças de cada personagem, elas vão se perder em tendências ditadas pelo ocidente. De oriental, só os olhos puxados e uma cena de uma feira livre, na qual se vêem muito de longe traços da cultura asiática.
De fato, a globalização estreitou as relações de tempo e espaço. O filme também faz referência a esse conceito quando trata da efemeridade da presença de uma aeromoça. A figura do avião representa o encurtar das distancias e a vontade de estar em outro lugar de uma maneira fácil e rápida. As menções a esse tipo de transporte não foram poucas. Além da presença crucial de duas aeromoças (uma que fugiu e outra que anos depois voltou) e de cenas com aviões de brinquedo, foram gravadas passagens em aeroportos. Além disso, fez-se alusão à velocidade dos deslocamentos, também, em cenas gravadas em estações de metrô.
Ambos os contos da película acabam no susto, com a mesma velocidade que começaram. Deixa a cargo do espectador imaginar e deduzir o que vai acontecer a partir dali. Fica o sentimento de que aquilo está incompleto. Talvez, causar essa sensação tenha sido proposital, já que se trata de um filme que mostra as complicadas relações inter-pessoais pós-modernas. Fica a reflexão sobre em que mundo estamos vivendo e que cultura estamos constantemente cultivando.

"Cultura pop e prom queens" por Paulo Azevedo


A relação entre a cultura midiática, a construção da identidade dos jovens e sua auto-representação na mídia – o discurso da popularidade.






Elas estão presentes em quase todos os filmes pop-teen-clichê-viciantes que são produzidos nos Estados Unidos. Essa divulgação massiva já garantiu a vida financeira, social e alcoólica de Lindsay Lohan como também o pavor de muitas pessoas em relação à atriz Sissy Spacek – Carrie, a estranha. O que há de comum entre essas duas? Ambas foram prom queens em dois “clássicos” cinematográficos da cultura pop... Ou rainhas do baile, simplesmente.
Os dois filmes protagonizados pelas duas atrizes – Meninas Malvadas (2004) e Carrie, a estranha (1976) – podem, a princípio, parecer bem diferentes. Mas os seus pontos em comum, e entre tantas outras produções cinematográficas americanas, é a ambientação da história: o High School, algo parecido com o Ensino Médio brasileiro.
Parecido, apenas, porque, principalmente nos teen movies, todas as frustrações, dúvidas e desafios da adolescência são superpotencializados. São várias as produções midiáticas que deixam clara essa difícil relação do adolescente norte-americano com a vida social escolar; a necessidade de auto-afirmação, de sensação de pertencimento a um grupo, de reconhecimento social, tudo é mediado pelas relações com os outros adolescentes da escola.
Todos esses objetivos de realização pessoal são, muitas vezes, canalizados numa situação social específica, a popularidade. Na mídia, a forma mais fácil de traduzir a mensagem de popularidade, principalmente nos meios audiovisuais, é o momento de coroação do rei e da rainha do baile de formatura.
Nas histórias dos filmes anteriormente citados, percebe-se que os protagonistas começaram a história sem fazer parte do grupo seleto de pessoas populares da escola. O papel de Lindsay Lohan em Meninas Malvadas é a de uma garota recém chegada da África e que estudou a vida inteira com os pais, nunca tinha ido à escola. Já a personagem de Sissy Spacek era uma garota com poderes sobrenaturais e vítima de uma mãe fanática religiosa que queria que sua filha tivesse uma vida social nula. As duas parecem estar condenadas à marginalidade social escolar.
É isso que acontece com ambas no decorrer dos dois filmes, a situação de não-popularidade é claramente associada à postura inicialmente passiva com a qual as duas personagens enfrentam seus problemas pessoais. Ao passo que elas conseguem destruir barreiras da vida social adolescente, elas vão ficando mais populares.
A prova final que elas realmente deixaram de ser losers, excluídas e deslocadas, e agora podem ser admiradas por toda a escola é a coroação de rainha do baile, ambas se tornam prom queens. A diferença na coroação das duas se dá na justificação do acontecimento. A personagem de Lindsay Lohan, Cady, é escolhida rainha para mostrar para todos que ela é uma menina boa que conseguiu ganhar das meninas malvadas; já a personagem de Sissy, Carrie, é escolhida como exemplo do tipo de pessoa que nunca deveria ter sido escolhida rainha do baile, baseada numa trama armada pela menina realmente popular da escola para acabar com a reputação de Carrie.
As conseqüências dessas coroações também são diferentes, enquanto Cady divide a sua coroa com as outras meninas da escola, executando um discurso quase emocionante de “como todas as garotas são especiais do seu jeito particular”, Carrie, depois de tomar um banho de sangue de porco, resolve matar todos os seus colegas com seus poderes psíquicos, destruindo a quadra da escola.
Não sabendo o que é mais trágico, se é o discurso de uma ou a revolta pós-frustração social da outra, fica claro o poder simbólico que a rainha do baile possui. É a expressão máxima da legitimidade social de qualquer high school americano.
Logicamente, existe o argumento de que, na verdade, toda essa história de popularidade é inventada pela indústria cultural para incentivar a idéia de consumo na cabeça dos jovens, já que os personagens estão diretamente ligados à moda, tecnologia, música e todos os ícones consumistas a eles associados. De fato, esse argumento tem fundamento, mas não quero me prolongar nessa discussão.
O meu foco será no próprio jovem e na sua auto-representação na mídia. Independentemente da interferência ou não da idéia de consumo na produção da indústria cultural americana, vou me aprofundar na relação dialética mantida entre os adolescentes de verdade e a mídia. Um esquema linear dessa relação seria o descrito a seguir:
Cultura consumista americana de valorização da beleza e estética >
> Filmes de cultura pop com coroação de rainhas do baile >
> Afirmação da ligação entre prom queens e popularidade >
> Representação do jovem na mídia (Programa Made MTV) >
> Re-afirmação da necessidade de popularidade, agora advinda do discurso dos próprios adolescentes.

O programa Made MTV foi criado em conseqüência da interferência da cultura pop e da cybercultura no cotidiano dos adolescentes. A cultura pop influenciou os adolescentes que, com a ferramenta da internet, puderam criar avatares, personagens virtuais, do jeito que mais lhes conviesse. Se por um lado a identidade estava fragmentada, já que cada um poderia ser o que quisesse, por outro lado, foram criadas ferramentas para a afirmação dessa mesma identidade. Nas comunidades virtuais, como o orkut, por exemplo, você pode mentir sobre si mesmo, mas vai acabar criando um personagem e ele vai ser moldado por símbolos que são transmitidos pela mídia. Mais do que nunca, o conceito de identidade pós-moderna de Stuart Hall faz sentido:
A identidade plenamente identificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente (HALL, 2002)

As roupas que você usa, seu gosto musical, suas fotos editadas no Photoshop, sem espinha nenhuma. Essa é a sua nova identidade recém criada, tarefa relativamente fácil se você domina os programas de computador e assiste MTV. No programa Made, diferentemente, a nova identidade não é alcançada tão facilmente. Ela vai ser construída no mundo real, com desafios reais e pessoas reais. Totalmente diferente do mundo virtual fisicamente indolor.
O programa começa com o apelo de algum jovem norte-americano que está insatisfeito com sua identidade e quer trocá-la por uma nova. A grande maioria desses adolescentes está motivada pela necessidade de auto-afirmação, comum a todos os jovens, mas, nesse caso específico, fortemente influenciada pela indústria cultural. É um reality show que se apropria de sujeitos reais com necessidades reais e objetivos também reais. No entanto, as suas motivações são bem mais subjetivas que suas necessidades ou objetivos.
O jovem manda uma carta dizendo que quer ser moldado, no que quer ser moldado e porque quer ser moldado. Logicamente, muitos desses quase personagens querem ser transformados em reis e rainhas do baile de formatura, assim como nos filmes descritos no começo deste ensaio, como um processo de preparação para a aceitação e o reconhecimento social.
O treinamento dura semanas, os jovens aprendem a falar em público, a fazer novos amigos, a comer melhor, fazer exercícios, abrir mão de antigos hábitos e antigos amigos. No fim, eles geralmente falam sobre como ficaram felizes depois de todo esse processo, de como é bom o sentimento de superação. Sem, definitivamente, fazer julgamento de valores, o jovem do final é uma pessoa diferente do jovem do começo, com uma identidade nova.
O que será que motiva esse jovem a perder quase que integralmente sua identidade, seus gostos, costumes, amigos, etc., em função de uma popularidade e aceitação do grupo maior do seu high school? Claro que muito disso é da cultura norte-americana de competitividade, admiração, consumo.
Contudo, o que acontece, de fato, é que esses jovens estão sendo fortemente influenciados pela mídia, ao mesmo tempo que esse comportamento diferenciado influencia a indústria cultural. Esse processo não é recente. O conceito de popularidade associado à felicidade já vem sendo mostrado na mídia desde o começo dos anos 90, ao menos de forma massiva, e com referências ainda mais antigas na história do cinema.
Além dos citados no começo, outros títulos influenciam o comportamento dos adolescentes em relação à popularidade. Ela é demais (1999) é talvez o filme que retrate de forma mais óbvia a importância da rainha do baile. O filme conta a história do adolescente mais popular de algum high school americano que é desafiado por seus amigos a fazer alguma menina deslocada virar prom queen. Depois de levar um fora de sua namorada, o personagem de Freddie Prinze Jr., Zach, afirma que consegue transformar qualquer menina da escola em rainha do baile, a escolhida é a personagem de Rachael Leigh Cook, Laney, uma quase artista plástica, desengonçada e que usa rabo de cavalo.
Por trás da história de amor que se desenvolve entre os dois protagonistas, fica explícita no filme a mensagem da necessidade de afirmação social do jovem. Zach só poderia ficar com Laney se ela fosse a rainha do baile, o que a legitimaria como uma pessoa legal e que teria reconhecimento e aprovação por parte dos outros alunos da escola. Mais que isso, o casal só seria feliz se ambos fossem coroados no baile de formatura, o que traria uma conseqüente popularidade.
Essa legitimação é a mesma buscada pelos jovens que procuram o programa Made da MTV americana. Influenciadas por essas histórias do cinema, muitas adolescentes que não se encaixam no estereótipo de garota popular apelam para essa alternativa em busca de auto-afirmação.
Sejam elas tímidas, espalhafatosas, desengonçadas ou gordinhas, todas nutrem esperanças de subir no palco e receber a coroa na formatura. Não simplesmente pela coroa, muito menos pelo palco, mas pela mudança de vida que aquele momento pode trazer, pela nova oportunidade de ser aceita. Não importa por quais tipos de desconstrução de identidade elas vão ter que passar. O que mais importa é o ideal de garota popular, aquele afirmado pela mídia, seja no cinema ou na televisão.
Por mais que o programa Made MTV seja protagonizado por pessoas reais com desejos reais, essa não é uma auto-representação do adolescente na mídia. Além de ter um programa produzido por pessoas não necessariamente jovens, e que tendem a apoiar o discurso de consumismo, os jovens que aparecem são exemplos dos mais influenciados pelos produtos da indústria cultural.
Além disso, vale salientar que aquilo que tem espaço na mídia, só o tem porque existe uma demanda. Todos os episódios do Made MTV, programa teoricamente produzido para dar voz ao jovem, servem, também, assim como os filmes, como subsídio para a criação de uma espécie de imaginário sobre a popularidade e a realização pessoal.
No fim das contas, parece-me que o esquema linear da relação dialética do jovem com a mídia faz mesmo sentido. No entanto, o ponto final no último argumento nele citado não deve ser considerado, pois ninguém pode prever o fim dessa relação conturbada.
A idéia saiu do cotidiano para o cinema, foi do cinema para a internet, voltou para o cotidiano, foi para a televisão, não necessariamente nessa ordem, não necessariamente em ordem nenhuma. Por mais que sejam facilmente identificáveis quatro pilares de sustentação desse discurso (cultura do high school, televisão, cinema e internet), não se pode excluir outras influências, muito menos determinar quem tem mais poder de influência.














Referências Bibliográficas

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade, tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro - 7ª edição. Editora DP&A. São Paulo 2002.

FREIRE FILHO, João. Formas e normas da adolescência e da juventude na mídia. In: Freire Filho, João; Vaz, Paulo. (Org.). Construções do tempo e do outro: representações e discursos midiáticos sobre a alteridade. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006, v. p. 37-64.

"Imagens dos homossexuais nas narrativas ficcionais da Rede Globo" por Ailce Moreira, Andréa Aquino, Júlia Castro, Pedro Neves e Rosália Vasconcelos


As telenovelas brasileiras são um produto de grande aceitação do público tanto dentro como fora do Brasil. Só as produções da Rede Globo são exportadas para mais de 125 países. Aqui elas desempenham um importante papel na articulação da sociedade, alimentando a opinião pública. As novelas podem ser vistas

...como um documento de época, como uma enunciação que participa da construção de memórias coletivas, de vez que a memória - esta narrativa que se presta à composição de identidades e sentidos - está intimamente relacionada com as imagens que construímos do (e no) presente, que se mantêm e se transformam através da participação na arena de conflitos que é o debate pela hegemonia social. Passa a ser vista também, principalmente no Brasil, como um dos discursos que ajuda a alimentar a opinião pública e a estabelecer consensos.(MOTTER, 2005, p.3)

A influência é tão grande que são capazes de lançar moda e deixar assuntos por meses em pauta. Um desses assuntos que são capazes de ficar na boca do povo durante toda a trama são as relações homossexuais.

Atualmente, faz sucesso o modelo de telenovela que cruza e contextualiza diversos temas polêmicos em histórias independentes. Entre as inúmeras relações que cabem dentro do modelo da teledramaturgia contemporânea, é recorrente que, em pelo menos uma delas, a homossexualidade seja abordada – tanto sob a ótica da caricatura, como a partir de um ideal de perfeição.

Pensar que a presença de casais homossexuais nas telenovelas da Globo é uma abordagem atual é um grande equívoco. Há registro da presença de personagens gays desde a década de 70. Segundo Leandro Colling, no seu artigo “O Homoerotismo nas Telenovelas da Globo e a Cultura”, apresentado no Terceiro Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, o primeiro registro da menção da homossexualidade em telenovelas da emissora foi em Rebu, de Bráulio Pedroso, exibida de novembro de 1974 até maio de 1975. Na trama, um dos parceiros gays assassina a mulher por quem o namorado se apaixona. Na mesma novela, Glorinha, representada por Isabel Ribeiro, cansada do tédio de seu casamento, foge com Roberta (Regina Viana). A última cena das duas as mostra fora de foco com os bondinhos do Pão de Açúcar se cruzando ao fundo.

Ainda na década de 70, a segunda novela que sugere o tema também o atrela ao crime. O Astro (1977) de Janete Clair contou a história do cabeleireiro gay Henri. Ele colaborou em um assassinato, ajudando o amigo por quem nutria uma paixão. O terceiro roteiro que abordou a temática foi Dancin’ days (1978), de Gilberto Braga. Na história, o ator Renato Pedrosa representava um mordomo afeminado e exagerado chamado Everaldo. O garçom Waldomiro e o chefe de cozinha Pierre Lafond de Marron-Glacê (1979) também reafirmaram esse estereótipo extravagante.

Na passagem dos anos 70 para os 80 estava no ar Os Gigantes (1979) de Lauro César Muniz. Na novela, não há nenhuma representação clara, apenas insinuações de um casal de lésbicas, justamente as protagonistas: Paloma (Dina Sfat) e Renata (Lídia Brondi). A história não foi para frente por causa da censura da ditadura militar. A repressão foi tanta que a novela acabou em suicídio.

A década de 80 foi mais livre nesse aspecto. A presença de homossexuais ficou mais freqüente e explícita nas produções globais. Foram nove telenovelas que exploraram a temática. Ainda em 1981, a cena em que o personagem Inácio (Denis Carvalho) assume ser gay para sua mãe (Fernanda Montenegro), em Brilhante de Gilberto Braga, causou comoção na audiência. No entanto, o relacionamento entre Inácio e seu namorado foi ocultado para passar pelo departamento de censura do governo. Ironia ou não, no final da história o casal terminou livre e feliz na Europa. Essa novela tem destaque por tratar do tema com um pouco mais de discurso social e por não ter brincado com os estereótipos.

Em 81 também foi ao ar Ciranda de Pedra de Teixeira Filho. Na novela, a homossexualidade era sugerida por Letícia (Mônica Torres), uma feminista que se comportava como um homem.

Seguindo a ordem, veio Um Sonho a Mais (1985), escrita por Daniel Más. O primeiro beijo entre pessoas do mesmo sexo aconteceu nessa produção: foi um singelo “selinho” entre travestis. No total, eram três personagens que também se encaixavam no estereótipo de extravagância, eles eram representados por Ney Latorraca, Marco Nanini e Patrício Bisso. Mas a reação do público foi tanta, que eles sumiram da novela

Quando Roda de Fogo (1986), de Lauro César Muniz vai ao ar, volta a tendência dos anos 70. Nessa novela, aparecem dois gays, ambos vilões assassinos. Em seguida vem Mandala (1987), dirigida por Dias Gomes. A trama também conta com um personagem homossexual criminoso.

Em 1988 é exibida Vale Tudo. A manifestação homossexual nessa telenovela é tão discreta que pouca gente percebeu que estava na trama um casal de lésbicas. Laís e Cecília, representadas por Cristina Prochaska e Lala Deheinzelin, respectivamente, namoravam até que Cecília morre e Laís começa um relacionamento com Marília (Bia Seidl). Elas se relacionam de forma discreta com poucas manifestações de carinho.

Em seguida, são representadas novamente mulheres masculinizadas. Dessa vez em Bebê a Bordo (1988) de Carlos Lombardi - são duas lésbicas que vivem um relacionamento correspondido. Além dessas produções, outras duas do final da década abordaram a homossexualidade. Não eram personagens de muita relevância para as tramas e por isso não causaram tanta inquietação na audiência. Foi o personagem afeminado Bombom de Pacto de Sangue - novela de Regina Braga - e Niete e Osmar, ambos personagens representados pelo travesti Rogéria em Tieta do Agreste, de Aguinaldo Silva.

Assim como nos anos 80, na década de 90, a Globo trouxe para a audiência mais nove novelas que abordaram a homossexualidade. As três primeiras, Mico Preto (1990), Barriga de Aluguel (1990) e Pedra Sobre Pedra (1992), ainda trouxeram consigo, o modelo de homossexual extravagante, exagerado e afetado.

A partir de A Próxima Vítima, de Sílvio de Abreu exibida em 1995, o perfil dos homossexuais começa a ser explorado com menos apelo à caricatura. Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) viveram um romance gay explícito com direito a final feliz. A cena em que Sandrinho se revela gay para a sua mãe foi uma das mais esperadas e teve uma das maiores audiências de toda a trama.

Ainda segundo Eduardo Colling influenciado pelo conceito de revelação do autor Dennis Allen, A Próxima vítima foi importante, pois marcou uma quebra no perfil dos homossexuais na teledramaturgia brasileira. Ele diz que os personagens foram divididos em dois grandes blocos: os sérios, que o público deveria acompanhar o drama individual da aceitação e da revelação para a sociedade, e os caricatos, que já estavam assumidos desde o início do roteiro.

Explode Coração (1995) e Zazá (1997) seguiram a segunda tendência. Na primeira, Floriano Peixoto interpretou um travesti e na segunda, Marcos Breda fez o papel do afetado Ro-rô Pedalada.

Em 1998 foi ao ar Por Amor de Manoel Carlos. Na trama, o bissexual Rafael (Odilon Wagner) larga a família para viver um relacionamento com outro homem. O público se identifica com o personagem justamente por ele usar o artifício de se revelar aos poucos. Até a metade da novela, ele vivia uma vida aparentemente heterossexual.

No final da década de noventa o modelo do gay caricatural volta ao ar em Suave Veneno (1999) – novela de Agnaldo Silva. Nesse momento, Diogo Vilela e Luis Carlos Tourino interpretam os afetados Ualber e Edilberto, respectivamente. Apesar de duras críticas de alguns grupos gays, ambos tiveram ótima aceitação do público.

A partir do ano 2000 a Globo consolidou a pratica de alternar personagens caricatos e sérios. Em As Filhas da Mãe (2001) de Silvio de Abreu, aparece na teledramaturgia brasileira a primeira referência aos transgêneros. Interpretado por Claudia Raia, o personagem viveu um relacionamento com Leonardo, representado por Alexandre Borges.

A novela Desejos de Mulher (2002), de Euclydes Marinho, veio em seguida com uma peculiaridade: o casal gay que estava presente desde o início da trama sofreu uma mudança drástica no decorrer da novela. Eles, que de início eram sérios, tornaram-se verdadeiras caricaturas. Essa mudança é atribuída aos baixos índices de audiência da novela.

Seguindo o modelo de Por Amor, Mulheres Apaixonadas (2003) veio em seguida. Lá o homossexual também foi tratado com sobriedade. Era um casal lésbico, Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), que se encaixava perfeitamente nos moldes heterossexuais: queriam casar e ter filhos, apesar de explicitamente trocar carícias. O padrão acabou virando uma constante para a aceitação dos personagens pelo público na maioria das novelas desse modelo que sucederam Mulheres Apaixonadas.

No mesmo período, porém em outro horário, estava sendo exibida Kubanacan (2003) de Carlos Lombardi. Nessa produção, o autor abusou dos personagens masculinos, mas que se fingiam ser homossexuais.

Em seguida, foi veiculada a novela Celebridades (2003), de Gilberto Braga. Dois casos de homossexualidade foram abordados: o primeiro de um bombeiro que perde o emprego quando resolve posar para uma revista gay e o outro de um casal de bissexuais que teve um rápido relacionamento. Eram duas mulheres, Laura, representada por Claudia Abreu, e Dora, interpretada por Renata Sorrah.

Senhora do Destino (2004) também apostou na delicadeza de um casal de lésbicas jovens e que nutriam desejos comuns a heterossexuais. Leonora (Milla Crystie) e Jenifer (Bárbara Borges) se relacionam aos poucos. O telespectador acompanha toda a descoberta, as duas assumem o relacionamento a partir da metade da novela. Elas também trocavam carícias explicitas e foi veiculada uma cena em que as duas dormiam na mesma cama, no entanto, o beijo gay não aconteceu. Na mesma novela, também aconteceu uma brincadeira com os estereótipos. O exagerado e afeminado carnavalesco Ubiracy (Luis Henrique Nogueira) vivia um relacionamento com o bissexual Turcão (Marco Vivela), também o típico modelo de falso machão.

Em 2005 foi ao ar a telenovela América, dirigida por Glória Perez. A temática foi abordada a partir dos dilemas do filho de fazendeiros Junior (Bruno Gagliasso). Criado para herdar todos os negócios da família, o personagem fingiu muito tempo interesse pelas atividades que a mãe esperava dele. No entanto, ele vivia em conflito. Na verdade, queria ser estilista e assumir o amor por um peão da fazenda. Ao final da novela, os dois ficam juntos. O tão esperado beijo chegou a ser gravado, porém não foi exibido. A emissora alegou que seria complicado exportar a novela para outros países que, pela cultura, não aceitam esse tipo de comportamento. No mesmo período estava no ar a telenovela A Lua me Disse (2005) de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa. A novela contou com mais três personagens gays.
A última novela do horário das nove horas foi Páginas da Vida (2006), de Manoel Carlos. Nessa produção o dermatologista Rubens (Fernando Eira) e o músico Marcelo (Thiago Picchi) viveram um relacionamento maduro e estável. Eram casados, bonitos, bem-sucedidos, apreciavam arte e mantinham um bom relacionamento com todos, inclusive com a família. O casal gay da atual novela do horário, Paraíso Tropical, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, segue esse mesmo padrão. A dupla é interpretada pelos atores Carlos Casagrande e Sérgio Abreu.


Formas de tematização, Apolo e Dionísio

Motter & Jakubaszko (2005), em artigo enviado ao V Encontro de Núcleos de Pesquisa da Intercom, definem os tipos de focalização de temas em telenovelas.

1) Quando o debate é intenso, a discussão pode ser frontal, ocupando grande espaço na trama (tematização), ou lateral, menos aprofundada (denúncia).

2) Se o assunto não possui uma importância central na história, pode ser apresentado como:
- discussão (a telenovela conversa com o público sobre determinado tema, normalmente através de conversas / reflexões de personagens);
- crítica de valores, comportamentos, sem que, necessariamente, o tema seja reiterado; normalmente, também através de conversas/reflexões de personagens;
- merchandising social, inserções pontuais em núcleos e tramas de menor importância na novela. Pode apresentar caráter claramente didático.

3) Por fim, o dramaturgo pode optar por apenas mostrar um tema sem discuti-lo, lembrar acontecimentos específicos da “vida real” através de diálogos entre os personagens ou esboçar questionamentos ao senso comum.

Observamos que o relacionamento entre Tiago e Rodrigo, em Paraíso Tropical, não se enquadra em nenhuma dessas categorias. A identidade sexual de ambos, o fato de viverem uma união estável, é apenas posto, sem panfletarismos ou alarde, não chegando a caracterizar uma temática da trama.


Essa é nova tendência na representação da homossexualidade em novelas da Rede Globo. O casal homossexual é representado sem extravagância ou caricatura. Na verdade, ele é criado para ser mais um dentro do enredo. Sobre o assunto, Ricardo Linhares afirma: “O casal homossexual é um casal como outro qualquer da novela. Não é um casal polêmico nem a novela vai levantar bandeira sobre a homossexualidade. Eles são aceitos com naturalidade pela sociedade, pelo círculo de amigos e no trabalho”.

Entretanto, apesar da intenção de pôr esses personagens como normais e aceitos sem problema algum, o que se tem é um casal que se pode chamar de “quase perfeito”. Isso porque, na tentativa de não gerar polêmica ou tratar de questões como um preconceito social, acaba-se por deixar escapar também da tela as dificuldades corriqueiras que qualquer casal, seja ele hetero ou homossexual, enfrenta.

Nesse novo tipo de concepção, tem-se representado um ideal de perfeição – almejado por todos os casais – que vai desde a beleza física até a maneira carinhosa e amiga com que os personagens se relacionam entre eles e com os outros na novela. Os personagens gays são pessoas independentes, financeiramente bem-sucedidas, íntegras, politicamente corretas (se contrapondo aos vilões da novela), seguras, jovens, fiéis, bem resolvidas, com relacionamentos ideais. Eles não possuem trejeitos, não são afeminados; consolam, ajudam e acolhem personagens de diversos núcleos da novela e estão sempre de bem com a vida.

Em meio a personagens com dramas pessoais, frustrações, expectativas, eles surgem como porto seguro, um ideal de perfeição apolínea[1]. A vida deles é, enquanto a dos outros personagens, mesmo os igualmente coadjuvantes, caracteriza-se como um eterno vir a ser, repleto de reviravoltas.

Para o ator Carlos Casagrande, essa é uma das melhores maneiras de falar de hossexualidade, sem, contudo, tê-la como principal aspecto da trama. Ele diz: “Na verdade, não é tratado o homossexualismo (sic) dentro da novela. É tratado sim, de um casal gay estar inserido na sociedade. Então, o casal ajuda a contar a história da novela, mas não se fala do relacionamento dos dois. Eles estão inseridos na comunidade, na sociedade, e não têm, absolutamente, nenhum tipo de preconceito, nenhum tipo de discriminação (...). Então, isso acaba ficando muito natural. (...) Acredito eu, (...) que há uma influência, talvez, pra sociedade tratar também os homossexuais iguais; pra que dê uma quebra, um pouco, no preconceito da sociedade, que nós temos e não adianta negar”. O ator Sérgio de Abreu concorda. “A homossexualidade é mais um dado da vida desses personagens, e não o dado”, diz.

Se entre autores e atores as opiniões são bem sintonizadas, entre o público não há consenso. Sites como o AthosGLS e GLS Planet, em matéria veiculadas em seus endereços, apóiam a iniciativa. Já a Associação da Parada do Orgulho GLBT de Goiás (APOGLBT-GO), reivindica realismo nas tramas. "A falta de abraços, beijos, carícias e simulações sexuais por debaixo dos lençóis, como acontece com os casais heterossexuais da novela, mesmo quando o casal gay está sozinho, em uma novela das nove horas da noite, demonstra que a ficção do folhetim está muito longe da realidade vivenciada pelos homossexuais do país. Gays também merecem um Paraíso tropical”, afirma Léo Mendes, coordenador da Associação da Parada, em ofício enviado aos diretores de Paraíso Tropical. Acerca desse assunto, apesar de afirmar que filmaria um beijo gay, o interprete Sérgio Abreu comenta: “É uma forma de fugir do estereótipo e é uma forma também das pessoas perceberem as sutilezas do mundo dos homossexuais. E eu acho que as sutilezas são as coisas mais bonitas; escancarar tudo perde a magia, perde o encanto”.

Mesmo com tanta divergência de opiniões, vale ressaltar que esse tipo de representação vem, cada vez mais, ganhando força e expressão, principalmente, nas telenovelas exibidas às vinte e uma horas da Rede Globo. De fato, essa é uma tendência que tenta agradar a todos: pretende, por um lado, não escandalizar indivíduos socialmente conservadores e, por outro, representar os homossexuais[2].

Como opção ética e estética, a representação de Tiago e Rodrigo é o extremo oposto do camp, uma representação do dionisíaco.

Como comportamento, o camp pode ser comparado à fechação, à atitude exagerada de certos homossexuais, ou simplesmente afetação. Já como estética, o camp estaria mais na esfera do brega assumido, sem culpas... (LOPES, 2002, p. 95)


É a capacidade de perceber o mundo como teatro[3], uma introdução da ficção na vida cotidiana, redimensionando o espaço público pelo ludismo das massas. Essa “sensibilidade gay” não está, necessariamente, vinculada a homossexuais, mas é uma conexão (via paródia, pastiche e exagero) entre hetero e homossexuais. O camp é filho legítimo da sociedade simulacral (LOPES, 2002).

As conseqüências do simulacro como eixo de uma época (...) implicam o declínio de parâmetros como real / irreal (...). As imagens midiáticas permeiam de tal forma o mundo que se tornam referências tão ou mais básicas de informação do que o cotidiano (...). A realidade se torna um jogo de imagens em substituição frenética”. (Idem, p. 105-106)

A expressão máxima do camp é o travesti, “personagem alegórico de uma modernidade inconclusa e em crise” (Idem, p. 101). Ele é caracterizado não por uma dualidade homem/mulher, mas por um impulso à simulação, à estética do artifício, que “não só aparece como dissimulação, mentira, mas desconstrói a dualidade entre natureza e cultura” (Idem, p. 109).

A estratégia de comunicação / sedução representada pelo camp não deve ser confundida com algumas representações feitas, principalmente, em programas humorísticos. Usaremos como exemplo o Zorra Total, exibido pela Rede Globo às noites de sábado desde março de 1999. O programa já passou por diversas etapas; atualmente, é composto por diversos quadros com personagens fixos. Zorra Total é conhecido por seu humor popular, que se vale de clichês, situações repetitivas e chavões para provocar risos.



Personagens homossexuais aparecem com alguma freqüência no humorístico. São construídos tendo por base uma série de estereótipos, tanto comportamentais como visuais, sendo facilmente reconhecíveis para o público. Essa forma de representação não destoa do resto do Zorra Total, que costuma receber muitas acusações de desrespeito às mulheres tanto quanto aos homossexuais. A atração é freqüentemente alvo de protestos por parte do movimento gay e de associações de direitos humanos. Em 2005, diversas organizações GLBTT entraram com uma ação no Ministério Público para remover quadros ofensivos do ar.

Um dos personagens gays do programa era Alfredinho, interpretado por Lúcio Mauro Filho. Os esquetes sempre apresentavam o personagem, afetado e efeminado, junto com o pai, Fernandinho. Fernandinho sempre tentava fazer Alfredinho se interessar por mulheres, mas este só pensava em moda, maquiagem, balé ou qualquer outro assunto considerado feminino ou gay. O quadro sempre terminava com Fernandinho dizendo o seu bordão: “onde foi que eu errei?”

Mais recentemente, Zorra Total contava com a participação do ator Rodrigo Fagundes como Patrick. Um personagem que explora o clichê do gay afetado, Patrick tinha, porém, um diferencial: apesar de iniciar o seu quadro como frágil vítima de chacota dos “machões” do programa, ele termina por demonstrar uma personalidade violenta, pronto para revidar os desaforos. Seu bordão (todos os personagens de Zorra Total têm pelo menos um bordão) é, curiosamente, “olha a faca!”.

Patrick e Alfredinho são facilmente reconhecíveis pelo público como homossexuais, devido a uma caracterização estereotipada dos seus comportamentos e trejeitos. Os personagens raramente demonstram desejo sexual, entretanto. Sabe-se da sua orientação por causa dos sinais externos, mas em quase nenhum momento uma possibilidade de relacionamento se faz presente.

Apesar dessa estetização da sexualidade, tais personagens não podem ser caracterizados como camp de fato.

...o camp expressa não o desejo de afirmação do estereótipo envelhecido da bicha louca, mas o desejo de empreendermos todos, das mais diversas sexualidade e sensualidades, uma nova educação sentimental, não pela busca da autenticidade de sentimentos cultivados pelos românticos, mas pela via da teatralidade... (Idem, p.113)

O que se vê na maioria dos humorísticos brasileiros são estereótipos surgidos não de um conhecimento, um entendimento e mesmo um afeto (por que isso, no camp, é essencial) pela cultura gay, mas de idéias pré-concebidas vindas de uma observação distante, “de fora”, que se recusa a olhar além do óbvio e compreender a lógica interna que rege idéias e comportamentos.

Outro personagem/quadro que apresentado por Zorra Total era o Pitbicha, interpretado por Tom Cavalcante. Sua “molde” parece ter sido tirado da banda Village People: ele veste jaqueta e boné de couro, tem um bigode à Freddie Mercury e usa acessórios com toques sado-masoquistas. Ao contrário dos dois personagens citados anteriormente, praticamente assexuados, Pitbicha é quase “hipersexuado”: assedia todos os homens do programa e o seu bordão, que durante o breve período em que o seu personagem fazia parte do humorístico entrou para a cultura popular, é “cuecão de couro”. Representa um outro clichê sobre a cultura gay: o homossexual masculinizado, de voz grossa, pêlos fartos e apetite sexual voraz. O próprio nome do personagem deixa claro as aparentes contradições de sua figura: vem de pitboy, rapaz freqüentador assíduo de academias, agressivo e preconceituoso, que vive se envolvendo em brigas pelo prazer de bater.

Pitbicha seria o personagem que mais se aproximaria de uma “caricaturização de dentro” da comunidade gay. Ele faz parte de um imaginário sobre subculturas como biker (motoqueiros), BDSM (Bondage/Discipline Domination/Submission Sado-Masochism) e Bears (ou ursos - gays ultra-masculinos). Ainda assim, o que se vê não é tanto uma caricatura dessas subculturas, mas a apresentação de clichês já processados pelo mainstream e tornados lugares-comuns através da circulação massiva de certas imagens: as fantasias do Village People, o bigode de Freddie Mercury, os adeptos da cultura leather (fetiche por couro) das paradas gays pelo mundo.

Em jeito de conclusão

Apesar de apresentarem imagens diferentes sobre os homossexuais, Zorra Total e Paraíso Tropical têm em comum o fato de serem produtos voltados a um público massivo. Na televisão, que pretende atrair as mais diversas pessoas, é raro se representar o que não é normativo na sociedade. Comportamentos de nichos, em geral, têm tão pouco espaço na mídia massiva quanto inovações estéticas ou trilhas sonoras experimentais. Na busca pela representação dos homossexuais (que, obviamente, também são telespectadores), tateia-se entre o exótico, o estranho, e a quase invisibilidade, como no caso de Tiago e Rodrigo na atual novela das nove.

E se é difícil agradar tantos públicos, é importante lembrar que os homossexuais também divergem quanto a melhor forma de serem representados[4]. São diversos os comportamentos, estilos de vida, gostos, interesses (como, aliás, o são em toda a sociedade). O caminho, talvez, seja o de um equilíbrio dialético, um Yin e Yang, entre o Dionisiáco e o Apolíneo, entre a representação “politicamente correta”, mas insossa, e a extravagante, cheia de vida, mas com existência trágica, vista como engraçada e facilmente caricaturável. Esse caminho parece estar sendo traçado agora, em Paraíso Tropical, através da chegada uma nova personagem, Carolina.

Na Copacabana da novela, a síndica de um edifício quer proibir a entrada de travestis e transformista no prédio. Estes, quando visitam seus amigos no prédio, recebem ataques preconceituosos da síndica. Esse é o estopim para uma série de confusões e cenas engraçadas, em que Carolina (interpretada pela transformista Rogéria)[5] se une a outras personagens da trama para se “dar uma lição” na “megera”.

Tratar de preconceito com humor: nada mais politicamente correto e, diga-se de passagem, muito mais novelesco e saboroso.
























BIBLIOGRAFIA

ABREU, Sérgio. Entrevista concedida ao Vídeo Chat Paraíso Tropical. Disponível em: <http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM680076-7822-MELHORES+MOMENTOS+DO+CHAT+COM+SERGIO+ABREU,00.html > Acesso em 14 ago 2007.
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[1] O apolíneo, como representado por Nietzsche em O nascimento da Tragédia, representaria equilíbrio, moderação, regras, civilidade, aparências. Já o dionisíaco seria devir, exagero, impulso, irracionalidade.

[2] O seriado americano Os Assumidos (Queer as Folk) também se propõe a representar os gays como pessoas comuns, sem utilizar símbolos usualmente relacionados à imagem do homossexual, como gestos, roupas e modos de falar. A grande diferença em relação às telenovelas brasileiras, porém, é que os personagens são retratados no cotidiano (relações de família, trabalho, doenças, romances, etc), sem deixar de contemplar o erotismo. “Beijos, abraços, relações sexuais não são somente insinuadas, mas representadas tal como é feito desde sempre nas representações ficcionais envolvendo heterossexuais. E esse é um dos aspectos que mais causam polêmica no referido seriado” ( ZANFORLIN, 2005, p.03).


[3] Nunca é demais lembrar que Dionísio (ou Baco) também é conhecido como deus do teatro...
[4] LOPES (2002) cita, como uma das faces desse fenômeno, o crescente “bom mocismo” das organizações homossexuais. Muitas delas, atualmente, lutam mais por uma integração ao status quo (uma “assimilação gay de classe média” ) do que por uma sociedade multicultural.

[5] Curiosamente, como estratégias para dar realismo à temática, os personagens travestis de Paraíso Tropical são representados por “travestis na vida real”.